As Faces Do Natal

Por Suzi Aguiar

Não gosto do final de ano. Não gosto das correrias de um lado para outro. Não gosto de comprar presentes e, menos ainda, de ganhá-los. Já virei minha vida do avesso me perguntando o porquê de tudo isso. Mas sei que nem sempre foi assim.

Lembro de ter querido dois brinquedos na vida. Não os tive. Lembro que durante os looooongos dias que antecediam o Natal, eu passava horas na vitrine da loja, com os olhos na boneca Susi, lançada nos anos 60. Em outra época, me apaixonei por uma bicicleta Caloi azul e amarela, exposta na calçada do Armazém Fontanella. Todo ano eu escolhia uma, mas ela logo aparecia com a plaquinha de “reservada”. E a minha linda inocência jurava que, naquele ano, Papai Noel tinha reservado para mim. Não, nunca ganhei os brinquedos que sonhara, mas também nunca pedi. Eu “sabia” que nossa mãe precisava dar o dinheiro para o Papai Noel comprar as peças para fabricar. E elas custavam caras.

E é com esta inocente sabedoria que penso nas milhões de crianças pelo mundo afora que sonham um sonho vazio. Milhões de pequenos que acordarão em mais uma manhã de Natal com a certeza de que o Papai Noel quer muito, mas não consegue atender ao pedido de todos.

Minha frustração infantil continua dentro do meu coração quase ancião, porque penso nas meninas que não afagarão as bonecas tão sonhadas, penso nos cabelinhos que não voarão ao vento porque as bicicletas ficaram apenas no desejo inócuo. Penso nos pés que não tocarão uma bola oficial e em tudo aquilo que nunca chegou: o uniforme do time, o patinete, o videogame, o celular… Minha frustração é saber que minha história de infância se repete a cada ano, em milhões de casas pelo mundo afora.

O Natal também é triste porque nele as ausências se tornam muito presentes: sejam daqueles de não puderam vir ou, especialmente, daqueles que já se foram. É melancólico porque do aniversariante poucos lembram. Ainda há muito a se pensar do pacote de mágoas, perdão e lágrimas.

Mas a noite fica divertida se esquecemos os problemas e rimos das figuras com as quais vamos compartilhar a noite mais bonita: a tia meio surdinha que não nos entende, o primo que se acha superior aos demais porque tem um ótimo emprego e um belo carro do ano, a nova namorada do tio recém separado que se acha linda – e não é que é mesmo? O cunhado que teima em falar do seu time de futebol a noite inteira, sem falar na criançada correndo ao redor da mesa.

Tem os amigos secretos onde sempre damos um bom presente e normalmente não gostamos dos que ganhamos, o amigo da onça, aquela brincadeira de roubar o presente do outro, que rende boas risadas. E, ainda, os abraços de Feliz Natal para quando a meia noite chegar.

Como última etapa do Natal, temos a manhã do dia 25. Quando os habitantes da geladeira, apertados, disputam um lugarzinho: sobras da ceia – por que sempre fazemos tanta comida? – sobremesas, o bolo do aniversariante que não pode faltar e outras muitas gostosuras que as mães fazem para agradar cada um dos filhotes que vem para almoçar.

Mas, de verdade, meu maior desejo é que a cada ano uma família acolha e realize o sonho de uma criança pobre de uma Instituição, ou não. Desta forma, haveria menos pessoas tristes porque o Natal está chegando…

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