Cuidar, um valor perdido

Por Suzi Aguiar

Nesta quaresma onde o lema é cuidar, fico um pouco preocupada com a maneira com a qual nós das gerações mais velhas estamos repassando valores para nossos descendentes.

Há um tempo atrás recebi um vídeo de meu neto de 3 anos, abaixadinho no gramado, bebendo água na torneira do jardim. A água escorria pelo queixo, pela camiseta. Tinha os pés descalços e uma carinha de feliz pela descoberta. Fiquei emocionada!

A maioria dos pais acha mais bonito mostrar que seu bebê sabe mexer no celular. Não, não sou contra, pelo contrário! Acho incrível a inteligência dos pequenos. Mas poucas crianças são incentivadas a experienciar coisas simples assim e nos vejo muito responsáveis por estas pequenas e prazerosas aventuras estarem se perdendo.

Também nos vejo negligentes no excesso de proteção com nossos filhos desde pequenos até a idade adulto. Nos sacrificamos demasiadamente querendo poupá-los. Lembro-me de que quando minha avó materna ficou viúva, os netos – crianças naquela época – entre 10, 15 anos se revezavam em dormir com ela todas as noites. Eu detestava, pois além de deitar muito cedo, não nos deixar ligar a TV e apagava todas as luzes da casa. Olhando por uma frestinha da janela, eu imaginava todas as coisas legais que poderia estar fazendo naquele momento. Mas ordem era ordem e quem ousava desobedecer?

Mais tarde em sua velhice, já adultos, a maioria dos netos se revezavam em passar as noites inteiras acordados, tentando amenizar o seu sofrimento numa doença terminal, enquanto nossas mães iam para as suas casas descansar, pois eram elas quem cuidava durante o dia. Sim, todos nós tínhamos nossas profissões e, por isso, o revezamento. Ninguém reclamava, pois crescemos vendo nossas mães cuidarem de seus tios e pais idosos. Era uma obrigação inata, natural para os mais jovens.

Nos últimos tempos as coisas mudaram muito. Cuidar dos nossos idosos continua sendo necessário, mas são raros os netos que se oferecem para dividir a tarefa. Estão sempre cansados, cheios de compromissos, não podem deixar os filhos pequenos em casa, não conseguem se manter acordados, ou ter uma noite mal dormida. Desculpas vãs! Ouvi certa vez de uma pessoa que, quem deve cuidar dos pais são os filhos e não os netos. Tristemente, conclui que ela não sabia nada a respeito do sentido verdadeiro da expressão amor familiar. Tive pena dela e de seus filhos.

Talvez, por isso, as clínicas de repouso para idosas se proliferem tanto! Não que as julgue ruins. São muito necessárias neste tempo em que as mulheres não são meras donas de casa. Para famílias tão pequenas realmente fica difícil estar direto ao lado dos pais envelhecendo.

As novas gerações estão a nossa frente em tantas coisas que é desnecessário listar. Mas perdem feio em compaixão, em empatia, sentimento de gratidão, dever e responsabilidade com os idosos. Não foram ensinados a devolver todo o cuidado e o carinho que tios e avós lhes dedicaram enquanto eram pequenos.

Publicado em 5 de março de 2020