Do borralho à avenida

Poe Suzi Aguiar

As últimas semanas foram intensas. Passara os dias trabalhando numa grande loja de departamentos, na sessão de fantasias. Ajudara muitas pessoas na escolha da melhor opção para os dias de folia. Mais uma vez o desejo de se vestir de super-herói fora superado pela figura colorida e doce do unicórnio.

O dia chegara ao fim. Cansada do vai e vem, do desdobra e dobra, de dar elogios nem sempre verdadeiros, da forcinha para uma boa escolha, a loja fecha. Ela se dirige ao ponto de ônibus.

O corpo cansado agora repousa no pequeno sofá puído pelo sol. Os pés estendidos precisam de uma pausa. Fecha os olhos e dorme ali mesmo. A cortina entreaberta deixa passar a luz da rua. Os últimos raios de sol se despedem dando passagem para a lua. A quietude do lugar acalenta o sono até que o celular avisa que já é hora de acordar.

Um banho morno e demorado revigora. O corpo, agora relaxado, reclama de fome. Mas tudo já estava preparado. Depois de uma refeição completa sente que, agora sim, a festa pode começar.

Ainda de roupão abre a maletinha e com traços firmes a maquiagem vai transformando aquela figura meio sem graça. Corretivo, base, sombras coloridas e brilhantes, cílios postiços muito longos abrem o olhar. Por fim, um batom vermelho. Olha para o espelho e sorri para o reflexo que vê.

Abre a porta do pequeno armário e retira sua fantasia. Não, ela não fora comprada às pressas numa loja de departamento. Fora cuidadosamente escolhida no galpão de sua escola. Foi paga a longas e dolorosas prestações, mas que lhe presentearam com o gostinho bom do “eu posso”, “eu vou ficar linda”.

Veste-a. O corpo escultural fica a mostra. Sua profecia se concretizou.

A garota das semanas passadas ficara ali, trancada no pequeno quartinho, numa casa muito simples de comunidade. Enquanto aquela transformada pela beleza e exuberância das cores e brilhos desce a pé pelas ruelas com o coração acelerado. O Uber a espera. Entra. Enquanto percorre o caminho, a trajetória para a realização do sonho passa como filme por sua mente. Os sacrifícios, as opções, a difícil escolha e a certeza de que, sim, é verdade! É ela quem veste a fantasia.

O som da bateria já é ouvido de longe. O carro desliza devagar nas ruas que margeiam a grande avenida. Ele para, ela desce. Caminha devagar querendo saborear cada segundo, querendo viver por inteiro a realização daquele sonho. Com coração acelerado para diante do gigante. É ajudada a subir no lugar mais alto. Vê a multidão. Engole a seco. Apenas uma lágrima cai antes de ser tomada pela euforia. E canta! Canta o samba-enredo do começo ao fim da avenida. Saboreia os aplausos, agradece a chuva fina que refresca.

O sol brilha no céu quando a porta fecha, deixando do lado de fora aquela que o brilho transformou. Como a cinderela ela volta para borralho até o próximo carnaval.

Publicado em 13 de fevereiro de 2020

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