Ele é ela… Conto de Carnaval

por Suzi Aguiar

A atmosfera já está diferente no país inteiro, das grandes às pequenas cidades. O sonho logo, logo vai sair do imaginário para se tornar real. Nos barracões o ritmo frenético dá o tom da folia. É fevereiro. O país já respira carnaval.

A espera fora longa, as prestações também. Mas o que importa agora é parar a rotina e embalar os dias ou as noites no toque da cuíca. Nos galpões, a adrenalina é o adereço mais utilizado e o brilho estampa cada pedacinho da história que a Escola vai contar.

As alas vão se formando uma a uma, os personagens ofuscam cada um dos foliões. Ali na avenida, nada do que foi importa, nada do que é faz diferença. Sorrir, dançar e cantar o samba-enredo é o que dá o tom, é a única regra.

Aos poucos, no compasso da euforia, chegam mais e mais foliãs e se agrupam felizes. Há uma ala só para elas. Seus corpos não são mais esculturais, mas ainda brilham como meninas no amor pelo carnaval. Agora o ritmo do quadril embala pesadas roupas. Todas, sem exceção, carregam nas veias a alegria e a paixão pela folia.

Mas basta prestar atenção: uma das baianas tem um brilho diferente no olhar. Veste muitas saias rendadas, grandes colares de bola e, no turbante tão alvo, frutas e flores se misturam. Antes de descer a ladeira guardou a sua história, varreu o pó de sua vida, espanou os afazeres, alvejou a alma, agora sem compromissos, e seguiu em frente.

Traz na alegoria da vida mais espinhos que purpurina. Nasceu menino, cresceu menino. Na labuta da vida diária veste a roupa que fantasia suas batalhas. Esconde-se durante o ano inteiro, do sonho ser ela.

Na sua imaginação já foi madrinha de bateria, porta bandeira, depois destaque. Agora abre alas para uma nova jornada. Nesta noite ninguém o reconhecerá. No pequeno espelho o brilho nos olhos e a boca vermelha, ofuscam a barba que teima em voltar todas as manhãs. Fecha a porta e com ela a vergonha e a insegurança ficam para trás. Junta-se as centenas de outras mulheres que mesmo tendo vivido muito, não viveram o suficiente para fazer a energia e o sonho acabar.

Ele é ela todos os dias, mas naquela noite, não enfrenta cara feia e nem julgamentos. Ele pode ser ela e ponto.

Publicado em 7 de fevereiro de 2020