Especialistas discutem sobrevivência das florestas

A Araucária entrou para a chamada lista de espécie ameaçada de extinção em 1998. Numa segunda atualização, passou para a categoria “vulnerável” e, desde 2006, foi enquadrada na categoria “criticamente em risco”, com redução de mais de 95% de sua ocorrência em relação à porção original.

Proibido o corte pela legislação federal há mais de 20 anos, ainda há discussão sobre a funcionalidade da medida enquanto preservação. Por isso, estudiosos e professores divergem sobre a ameaça de extinção dessa árvore.

Os professores de Engenharia Florestal André Felipe Hess e Adelar Mantovani, ambos do CAV/Udesc falaram sobre o assunto. Apesar de discordarem em algumas questões apontadas como agentes desta extinção, os dois reconhecem que apenas proibir o corte não resolve o problema. Isso porque, existe a preocupação em conservá-la, mas, por outro lado, há o impedimento de uso do recurso. Assim, falta estímulo para quem tem áreas e queira implantar uma floresta de araucária. Para isso acontecer é preciso manejo sustentável, ou seja, usar o recurso de forma racional. Até um manejo experimental junto com os proprietários foi defendido. A ideia da lei é proteger, mas está restringindo de uma forma ou outra cada vez mais, garantem ambos.

Para Hess, as alterações climáticas, um dos fatores indicados como causa, não tem relação com a possibilidade de extinção da espécie. “Mudanças no clima ocorrem naturalmente e sempre acontecerão”, argumenta. O que sucede, segundo ele, é que os proprietários de terra não têm interesse em floresta, porque ninguém vai cuidar ou preservar um recurso que não tenha valor econômico.

Ele se refere ao ciclo de vida lento quando comparada a outras espécies, como o pinus, espécie exótica. A primeira atinge a vida adulta somente após 15 ou 20 anos, enquanto a segunda leva metade desse tempo. Ou seja, só mais de uma década e meia depois de plantada é que a araucária passa a produzir sementes (pinhões) em pinhas. “É necessário intervenções de forma moderada, que façam com que a floresta mantenha a sua taxa de incremento, a regeneração natural e a sua estrutura futura”, explica. Nesse aspecto, o manejo sustentável aparece como uma possibilidade de conservação da espécie. No entanto, estudos indicam, de acordo com o professor André, que não manejar e não intervir é mais prejudicial do que uma exploração como foi feita no passado, porque a taxa de incremento diminuiu, a espécie não está se regenerando e não se veem novos indivíduos.

Os professores concordam que sob competição a entrada de luz na floresta é determinante em alguns casos. A falta de luz pode estagnar o crescimento das árvores e nunca virar um indivíduo adulto.

Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina
Um levantamento realizado por ao menos quatro instituições (UFSC, Udesc, Furb e Epagri) pode alterar, significativamente, algumas medidas ambientais altamente restritivas no Estado. A pesquisa, além de inventariar os recursos florestais nativos, também buscou informações junto aos moradores das regiões no entorno das florestas para saber quais as espécies de plantas nativas mais utilizadas, os usos atuais e potenciais e a importância que estas espécies têm para a população dos pontos de vista econômico, social e cultural. Com a proibição do corte da araucária, um dos relatos é que, muitas vezes, proprietários de terra eliminam as araucárias ainda pequenas, que brotam no meio de pastos, para evitar problemas com a lei posteriormente, quando se tornarem árvores.

O estudo mostrou que não dispomos de uma política para a conservação dos remanescentes de floresta com araucária. Este trabalho do inventário foi base para elaboração das diretrizes para a política florestal catarinense. O professor do departamento de Engenharia Florestal da Udesc, Adelar Mantovani, acredita no risco de extinção. “Porque ela na sua máxima expansão ocupava cerca de 200.000 quilômetros quadrados e houve redução de mais de 95% dessa área de ocorrência. E essa redução drástica na área de ocorrência é um dos principais motivos que faz com que ela esteja na lista de ameaçada. Isso não quer dizer que localmente esteja ameaçada”, explica.

De acordo com ele, a Serra Catarinense é privilegiada pois conta com boas populações de araucária e isso se deve ao modelo de atividade agropecuária utilizada nesta região. No entanto, “São poucos os fragmentos de floresta com araucária em bom estado de conservação”, afirma.

Florestas no Estado
A Floresta Ombrófila Mista (FOM – Floresta com Araucária), que em Santa Catarina ocorre desde o Planalto ao Extremo Oeste, apresenta atualmente, uma cobertura estimada em 24%, um bom quantitativo. No entanto, os dados do Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina mostram que a FOM se apresenta muito fragmentada e mais de 80% são fragmentos com menos de 50 hectares, os quais possuem araucária, no entanto, com poucos indivíduos e indivíduos ainda jovens.

Pinhão um recurso de mercado razoável
Para manter a floresta, Adelar Mantovani defende o uso do recurso sem prejuízo futuro para a espécie, ou seja, garantindo a sustentabilidade. Neste contexto, ele considera o pinhão um produto tão importante quanto a madeira. “O pinhão tem um valor de mercado razoável e em médio prazo ele pode ser mais rentável do que a própria madeira. O foco tem que ser o pinhão”, defende o professor. “O uso do pinhão não significa que haverá descarte da madeira”, argumenta ao destacar que seria interessante que houvesse incentivos para quem conservou áreas de florestas com araucária, a exemplo de pagamento por serviços ambientais, e também a plantarem novas áreas. Assim, a floresta seria ampliada e a araucária sairia da lista de extinção.

Política de fomentos
O professor Adelar Mantovani entende que a medida mais importante neste momento seria o estabelecimento de uma política de fomento ao plantio da Araucária. Aspecto amplamente ressaltado como uma das principais recomendações do Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina.

“Os plantios ampliariam a área de ocorrência, o potencial de fluxo gênico, áreas de abrigo e corredor de fauna, conectariam fragmentos com remanescentes e, especialmente, ampliariam o potencial do pinhão como importante recurso, com demanda nacional”, afirma.

Qualidade genética
Uma política de fomento ao plantio valorizaria os remanescentes atuais como importantes fornecedores de sementes. A partir de dados já existentes na literatura, várias áreas de remanescentes poderiam ser definidas como áreas de coleta de sementes (ACS) ou áreas de produção de sementes (APS), garantindo qualidade genética do material usado para os plantios.

Infos: Bega Godoy – Correio Lageano