Estudo demonstra importância do manejo com fogo nos campos de altitude

Serra Catarinense – A partir de entrevistas com moradores da região serrana do estado, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) demonstrou a importância de se manter os campos de altitude a partir do manejo tradicional, com uso de fogo e de gado. O estudo, divulgado no dia 21 de janeiro na revista científica Scientific Reports, constata que, após 30 anos sem esse tipo de manejo, os campos desaparecem por completo – o que tem implicações diretas na biodiversidade, nos ecossistemas e na cultura regional. A pesquisa fez parte da tese de doutorado de Rafael Barbizan Sühs, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSC, e contou com a participação dos professores Eduardo Giehl e Nivaldo Peroni, ambos do Departamento de Ecologia e Zoologia.

O estudo foi desenvolvido entre 2016 e 2018, no Parque Nacional de São Joaquim e arredores, principalmente nos municípios de Urubici e Bom Jardim da Serra. As entrevistas com antigos e atuais proprietários de terras foram combinadas a análises de imagens aéreas e de satélites. “Nosso trabalho objetivou compreender como os proprietários que possuem campos de altitude em suas propriedades fazem o manejo desses campos, há quanto tempo isso é feito e, dentre outras coisas, a opinião desses proprietários sobre o futuro dos campos”, explica Sühs. Também foi avaliado como as paisagens se transformam com o passar do tempo em campos que ainda são manejados e em locais que foram convertidos em áreas protegidas, nos quais o fogo e o gado são proibidos. “Nossa hipótese foi de que as áreas de campo nativo convertidas em áreas com restrições de manejo tradicional sofrem uma rápida transformação, tornando-se arbustais (vegetação dominada por arbustos, também chamada de vassourais)”, complementa o pesquisador.

Os resultados demonstraram que em apenas 12 anos sem o manejo tradicional, metade das áreas de campos tornam-se arbustais. Quando o fogo e o pastoreio são impedidos, os arbustos tendem a substituir as pequenas ervas e gramíneas da região, alterando o conjunto de espécies que a habitam. “Com esses dados conseguimos estimar que bastam 30 anos para haver uma perda de 99% das áreas de campos para arbustais. Enquanto isso, os campos nativos tradicionalmente manejados com o fogo e a pecuária extensiva permaneceram praticamente inalterados nos últimos 40 anos”, relata Sühs.

Manejo pelo fogo

Segundo o pesquisador, o manejo pelo fogo nos campos de altitude é uma prática comum em todo o sul do Brasil, realizada há séculos e ensinada ao longo das gerações. Com baixa extensão e intensidade, ele costuma ser utilizado a cada dois ou três anos em diferentes regiões da propriedade. Ou seja, uma área completa de campo dificilmente é queimada em um mesmo ano em uma mesma propriedade. Formam-se mosaicos nos campos, que possibilitam a existência de diferentes espécies em uma mesma região. Já a pecuária ocorre de forma extensiva, com animais livres e em baixa densidade.

“O fogo é utilizado para induzir a rebrota dos campos para a alimentação do gado. Sem o fogo, os campos crescem e ficam secos, dificultando o pastoreio e acumulando uma grande quantidade de biomassa seca. Assim, ao longo do tempo, os campos passam a ficar ‘sujos’, termo utilizado pelos proprietários ao se referirem aos campos com vegetação lenhosa. Essa vegetação lenhosa é geralmente composta por arbustos, muitas vezes dominados por apenas uma espécie, a chamada ‘vassoura’. Essa grande quantidade de biomassa seca e de arbustos aumenta o risco de incêndios catastróficos, uma vez que são materiais inflamáveis. Essa foi uma das preocupações frequentemente relatada pelos entrevistados”, esclarece Sühs.

Os resultados obtidos pelo grupo, portanto, indicam que, ao realizarem essa tradicional prática de manejo, os proprietários estão contribuindo para a conservação dos campos e de toda sua biodiversidade. Ainda é bastante controversa e pouco compreendida a função ecológica do fogo em áreas propensas à queimada. “Nesses ecossistemas o fogo é frequentemente restringido (proibido) quando são convertidos em áreas protegidas (unidades de conservação). É o caso, por exemplo, de savanas, estepes e campos da América do Norte e África, campos sulinos e o cerrado no Brasil. Isso pode gerar consequências catastróficas na paisagem, na biodiversidade, no funcionamento dos ecossistemas e, consequentemente, na vida das pessoas, especialmente daquelas que dependem desses ecossistemas para sobreviver”, comenta o pesquisador. Nesses ambientes, as espécies estão adaptadas ao fogo e, muitas vezes, dependem dele para sua existência. Dessa forma, ressalta ele, é necessário entender que o fogo nem sempre é algo negativo. Ele pode fazer parte da dinâmica de certos ecossistemas.

“Nossos resultados sugerem que tomadores de decisões e gestores de áreas protegidas precisam considerar o manejo tradicional do fogo como um processo crucial para os campos, que a degradação pode afetar os campos mesmo estando em áreas protegidas e que certos distúrbios podem maximizar a biodiversidade e os aspectos culturais das paisagens”, destaca Sühs. O estudo reforça, portanto, a necessidade de políticas públicas de conservação que regulamentem e instruam sobre o uso do fogo como ferramenta de manejo nos campos de altitude do sul do Brasil. O pesquisador alerta, ainda, que seu uso deve ser feito com responsabilidade, “pois, em alguns casos, pode favorecer espécies exóticas invasoras ou atingir as florestas quando as áreas não forem adequadamente supervisionadas”.

infos: Camila Raposo Agecom Ufsc