Eu seria professora de novo, se a vida recomeçasse

Não há como não lembrar. Nem há como esquecer as centenas de histórias vividas na pele da professora que fui. Foram 32 anos. Já faz quase uma década que fechei o ciclo e me aposentei e eu ainda gosto de dizer que sou professora. Isto me dá orgulho, uma espécie de poder, de saber-se capaz de transformar vidas e isto não há salário que pague.

Me vejo professora quando invento para sobrinhos e neto brincadeiras envolvendo letras e números. Quando, empolgada, modifico a entonação de voz para deixar claro que o personagem da história mudou. Me vejo professora sentada no chão ou inventando mil peripécias para que qualquer brincadeira vire uma divertida aprendizagem.

Não! Não sou só uma avó apaixonada por letras e livros! Minha alma é professora! Ela precisa ver-se ensinando.

Quando estou com crianças me transformo. As brincadeiras que favorecem o ler e o escrever brotam do nada, sem planos, sem intenção. Elas apenas vêm! E fico feliz com a sintonia que surge entre mestre e aprendiz. O sorriso da descoberta e o olhar de quem aprendeu são impagáveis, tal qual a sensação de que, sim, eu ainda sei ensinar.

A paixão pela docência nasceu comigo. Sem nenhum tabu digo que fui uma professora apaixonante e apaixonada por ensinar e aprender. Inventava mil brincadeiras e atividades divertidas. Era incansável especialmente com aqueles que tinham dificuldades. Jamais desisti de um aluno. Amava o trabalho de conquistar a confiança.

Nos últimos anos me via cansada de dar aulas. Cansada do dia a dia maçante. Cansada de pais irresponsáveis. Estava exausta de mergulhar de cabeça nos problemas que não eram meus, exausta das promessas dos governantes que nunca se cumpriam. Alguns vezes me deixava abater por esta nuvem cinzenta que cobria a beleza do ensinar e aprender.

Eu me aposentei. Fiquei distante das escolas para varrer do coração todos os cansaços que me afligiam.

Tanto tempo longe deste cotidiano e me vejo com saudade dos meus pequenos. Das dezenas de beijinhos melados na chegada. Dos abraços apertados da saída. Saudade da mesa repleta de presentes dados com o mais inocente e profundo amor: uma tampinha de garrafa, uma flor, muitos desenhos que diziam mais que uma folha inteira de palavras, uma bala – isso, aquela que alguém achara necessária para retribuir o sorriso todas as manhãs. Saudade de tantas outras coisas que podiam parecer insignificantes, mas que tinham todo o sentido para dizer implicitamente “eu te amo”.

O mundo mudou. A vibe é outra: livros interativos, diferentes idiomas, e todos os desenhos vistos na palma da mão dos pequenos, novos jeitos de ensinar. Mas a figura do professor e do aluno continuam se conectando apenas com o coração e, quando isso acontece, o amor é a soma total.

É desta paixão que tenho saudade. É este querer bem que me faz falta. Que bom que eu vivi tantas histórias bonitas, tanta entrega recíproca capaz de fazer irrelevantes o cansaço e as decepções.

Que bom que eu posso dizer: Eu seria professora de novo se a vida recomeçasse…

Suzi Aguiar