Fiquemos no sofá

Por Suzi Aguiar

O Corona está espalhado pelo mundo afora. Esta é uma batalha tão letal quanto as outras. O inimigo invisível atacou bem longe de nós e por um bom tempo achávamos que, antes de chegar aqui, haveria contra-ataques poderosos e poderíamos estar livres. Mas não! As defesas existentes não são suficientes.

Nossos soldados vestem branco e arriscam suas vidas para cuidar das nossas. Por muitas horas seguidas ficam no front. E quando exaustos, depois de muitas horas de luta, nem sempre podem voltar para casa. Heróis anônimos.

Hospital quase sempre é lugar indesejável. Ninguém quer estar lá. Se pacientes, estamos num período ruim, pois a falta de saúde nos faz frágeis e o desânimo nos toma a maior parte do tempo. Se profissionais, como os anjos de nossa imaginação, passam os dias ou noites vivendo dramas que não são seus, mas que por empatia também ficam tomados de medo. Com diferentes procedimentos vão tentando encontrar a melhor maneira para a cura ou para minimizar os sintomas.

Emergências cheias, longos corredores, UTIs barulhentas pelos sinais constantes dos aparelhos que tentam manter os pacientes vivos. O vai e vem de pessoas compõe o cenário. A toda hora chegam doentes. Ali é palco onde vida e morte encenam o cotidiano. Nos rostos aflitos, nos passos apressados, nas lágrimas que caem é possível entender o dilema que cada um está vivendo. Diferentes histórias são protagonizadas no interior de cada porta fechada, de cada biombo que separa leitos. Com o agravante de que muitas vezes a família não consegue nem saber como seu familiar está.

Assim é o momento em que estamos vivendo. De repente, do nada, podemos estar de cara com a morte. Se ontem não, hoje ou amanhã talvez sim. Além dos Hospitais de Campanha sendo erguidos, é difícil nos manter tranquilos vendo caminhões frigoríficos estacionados em hospitais, sepulturas abertas, túmulos em alta escala sendo construídos.

A batalha continua. As perspectivas são ruins. Ainda não chegamos no pico da epidemia aqui. Mas se esta expectativa nos torna frágeis e o sentimento de impotência nos toma conta é hora de darmos a volta por cima e esperançar.

Além do pôr do sol, um novo dia sempre surge trazendo na bagagem muitas lições. Se nos desarmarmos dos embates políticos podemos ver que, apesar de todas as baixas, a bondade, fraternidade e solidariedade atingiram um número infinitamente maior de pessoas.

São tantas iniciativas, tantas pessoas engajadas em amenizar a fome e carências do outro, que o que fica como maior lição é o quanto somos amorosos e desprendidos especialmente em situações extremas.

“Aos nossos avós e bisavós pediram que fossem a guerra; a nós, que fiquemos no sofá”. Sejamos responsáveis. Esta é a parte que nos cabe nesta batalha.

Publicado em 27 de abril de 2020.

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