Morangos e amigos

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
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Sex, 17 de Março de 2017 09:22
Adoro morangos! Fruta vermelhinha, cheia de pequenos pontos como poros de pele madura, às vezes muito doce, outras nem tanto, com folha verdinha feito esperança, como base de sustentação.

Quando criança me parecia uma fruta inatingível, tal a escassez e, consequentemente, o valor aplicado. Moranguinho me reportava à polidez, à sofisticação. Na minha ilusão infantil era coisa de gente rica e, portanto, sonhar com o gosto era o que me restava. Não consigo lembrar de quando senti o sabor pela primeira vez, mas o fascínio veio dos livros infantis quando ilustravam ora a cesta de doces e frutas de Chapeuzinho Vermelho, ora os caminhos da Branca de Neve.

Com uma tigela cheinha deles bem lavados e maduros na minha frente, comparo-os com uma verdadeira amizade: o sabor doce e inquestionável de se poder contar com alguém, seja nos bons momentos da vida ou naqueles mais difíceis; a irregularidade de sua textura à pele adulta que muito além da aparência velha marca o tempo e as experiências vividas e guardadas, como os amigos especiais que se leva pela vida afora.

As amizades especiais são escassas para mim. Numa vida de nômade mudando de cidade a cada dois anos encontrei muitos amigos, entretanto, poucos verdadeiros. Será que preciso de todos os dedos das mãos para contá-los? Talvez os de uma sejam o suficiente e, por isso, me são tão importantes.

Como os morangos que hoje se vendem nas esquinas, bons ou nem tanto, doces ou com gosto de agrotóxico, são os amigos. Os temos por perto o tempo todo. Rindo de trivialidades, dividindo acontecimentos, concordando e discordando opiniões, compartilhando gostos e, para meu desgosto, tantas mensagens copiadas.

Mas os amigos verdadeiros têm gosto dos morangos da minha infância: não estão sempre por perto, não precisamos conviver diariamente, nem nos encontrarmos frequentemente. Eles estão ao nosso lado nos momentos muito especiais como comemorações de conquistas e realizações de projetos. Mas, sobretudo, naqueles instantes mais difíceis quando sentimos a força esmorecer, a angustia apavorar, a tristeza abraçar.

Contrastando com a fragilidade da fruta perecível em pouco tempo, a materialização do verdadeiro amigo esta na confiança de que no momento que eu mais precisar, ele estará aqui dividindo comigo os sabores e dissabores de minha vida.

A tigela agora vazia me encheu de prazer: do gosto doce, de lembranças boas, da certeza que, sim, eles são poucos, mais preenchem minha vida. Amigos são os irmãos que escolhemos.
 

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