A democracia do roupeiro

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
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Sex, 24 de Março de 2017 15:49
As estações das flores e do sol quente já se despediram deixando uma saudade antecipada. O friozinho, que neste período ainda é gostoso, vai mudando tudo gradativamente, virando do avesso os nossos hábitos.

Logo cedo visito o roupeiro. Eita coisa democrática! Durante o ano, tal qual um edifício, está sempre aberto a mudanças. Na minha tentativa de achar a peça mais apropriada para vestir, percebo que cheguei atrasada para a nova estação.

Nas prateleiras à altura dos olhos estão as roupas mais importantes da estação que passou, não por que custaram mais, nem porque sejam de um tecido nobre, não, nada disso. Apenas porque traz conforto, bem estar e prazer, tipo a comida preferida que na maioria das vezes não seja um prato elaborado e sim algo simples como um bife passado com um temperinho especial muito saboroso.

Nas prateleiras de baixo ficam as coisas que se precisa ter sempre a mão e, por isso, também tem seu status quo: os sapatos sempre limpos - afinal no caminho que passamos há resíduos de xixi de animais, poeira, barro e outras tantas porcarias. Como levar tudo isso para dentro do guarda-roupas? – Ali ficam também as bolsas e os cintos. Mas é lá nas prateleiras de cima, ao alcance somente com ajuda de uma banqueta, que vestidas em saquinhos de plástico, sem nunca reclamar por passar meses apertadíssimas na minha tentativa de ganhar espaço, que encontro aquelas que receberam, na ultima estação, o título de desnecessárias. As roupas de frio, mas que aqui em São Joaquim se usa por mais de seis meses. Sei, elas já já voltarão a ser as queridinhas do pedaço!

Eu me atrasei em preparar as roupas para esta estação, mas ela está bem visível nos quintais, varanda e janelas onde as velhas cobertas, cobertores e edredons tomam banho de sol preguiçosamente, enquanto as blusas de lã e casacos dançam ao ritmo do vento depois de mergulhar no amaciante. A tarefa agora é selecionar as peças que vão ser rebaixadas de posição ao mudar para o andar de cima do roupeiro.

Na coluna de gavetas também há uma hierarquia. A primeira é a mais especial, embora pouco visitada: Duas tiaras infantis iguais, lenço e camisa de escoteiro, além daquelas que trazem saudade. Depois há a de bijuterias, porque joias que é bom, naninanão! De lingeries, outra de pijamas, aquela cheinha de cachecóis. Mas é na de baixo que estão as coisas mais irrelevantes: uma gravata borboleta e camisa de smoking que há anos ninguém usa, blusinhas de mil novecentos e antigamente que a cada década voltam à moda, uma saia de pontas guardada a espera de o tempo passar para retornas as passarelas da vida e um tanto mais de peças que talvez nunca mais sirvam a ninguém, mas que guardam boas histórias. E aí me pergunto: irrelevantes?

Ufa! Salva pelo gongo! Pego um jeans e camiseta. O bom é que todo joaquinense que se preze sempre tem um casaquinho bem a mão.

Sei, agora é hora de mudar os moradores de cada prateleira.
 

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