O homem nu

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
PDF
Imprimir
Ter, 17 de Outubro de 2017 13:04
Desde que mundo é mundo a nudez é condenada. Até Adão e Eva eram cobertos por uma folha de parreira. Nesta semana, organizando os livros da estante, encontrei um que ainda não tinha lido: O Homem Nu, do Fernando Sabino. Curiosa ao ler o título, resolvi abri-lo para tentar entender do que se tratava. A obra, lançada em 1960, é uma reunião de crônicas do autor mineiro.
 
A história que dá nome ao livro retrata os apuros vividos por um sujeito que se aventura a pegar o pão que o padeiro deixou no parapeito da escada de seu prédio. Isso mesmo, “se aventura”. Isso porque ele estava em casa, nu, pronto para tomar banho, quando percebeu que o banheiro estava ocupado. Enquanto esperava sua vez, decidiu abrir a porta do apartamento, dar dois passos, pegar o pão e voltar para o conforto do lar. Mas não contava com o vento - que bateu sua porta e o deixou do lado de fora de casa do jeito que veio ao mundo.
 
Consegue se imaginar nesta cena? O que você faria? Não vou contar o final da história para não perder a graça. Se também ficou curioso, clica aí (http://www.releituras.com/fsabino_homemnu.asp) e leia você mesmo.
 
Mas o fato é que, cheios de vergonha e subordinados a repreensão, nos habituamos a ver a nudez como atentado ao pudor. Embora o mundo mude rapidamente, a nudez continua um tabu.
 
Há algumas semanas, o nu exposto no Museu de Arte Moderna ganhou holofote. O olhar brasileiro se concentrou na performance “La Bête”, em que um modelo nu representava uma leitura interpretativa da obra Bicho, da artista Lygia Clark. Peça em latão que, pela manipulação do público, muda continuadamente de forma. Na representação, o modelo alterava a posição da parte do corpo tocada pelo público. Uma criança, ao lado da mãe e de dezenas de pessoas, tocou seu pé e perna e essa imagem viralizou nas redes sociais.
 

Então, uma acirrada discussão entre o bem e o mal, o certo e o errado, o concordo e o discordo deixou claro que, sim, a nudez ainda é um tabu e a intolerância, preponderante. Talvez pelo fato dos acontecimentos estarem mais visíveis e expostos ao mundo pela internet, me parece que paramos de evoluir, ou retrocedemos.

Assisti e li pasma aos posicionamentos. Não porque não concordo com a divergência de opiniões. Muito pelo contrário! Mas pela maneira como as pessoas deixam transparecer ódio daquilo que se opõem.
 
Há milhares de pais que criam seus filhos sem erotizar o corpo. E a criança revela o que aprende, a educação que tem: malícia ou não, sexualidade em evidência ou não. Não vi maldade alguma no fato dela tocar no artista. A maldade está na mente das pessoas.
 
Pedofilia? Em frente de dezenas de pessoas? Aquela cena, a olhos vistos, nada tinha a ver com abuso. O artista não tocou na menina.

Precisamos ser mais condescendentes com as opiniões que divergem das nossas. A semana passou e as notícias em evidências já são outras. Mas fica meu desejo de que os diálogos e debates sejam democráticos. Nada de irracionalidade e exaltação do ódio. O nu, em determinadas situações pode até ser engraçado, como bem relatou Fernando Sabino. Tudo depende da forma como você vê.
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

2011 Rodrigo Produções Internet Design - Tecnologia Progressiva para a Internet