Do borralho à avenida

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
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Qua, 14 de Fevereiro de 2018 07:37
As últimas semanas foram intensas. Passara os dias trabalhando na sessão de fantasias. Ajudara muitas pessoas na escolha da melhor opção para os dias de folia. Mais uma vez o desejo de se vestir de super herói fora superado pela figura colorida e doce do unicórnio.

O dia chegara ao fim. Cansada do vai e vem, do desdobra e dobra, de dar elogios nem sempre verdadeiros, da forcinha para uma boa escolha, a loja fecha. Ela se dirige para o ponto de ônibus.

O corpo cansado agora repousa no pequeno sofá puído pelo sol. Os pés estendidos precisam de uma pausa. Fecha os olhos e dorme ali mesmo. A cortina entreaberta deixa passar a luz da rua. Os últimos raios de sol se despedem dando passagem para a lua entrar. A quietude do lugar acalenta o sono até que o celular avisa que já é hora de acordar.

Um banho morno e demorado revigora. O corpo, agora relaxado, reclama de fome. Mas tudo já estava preparado. Depois de uma refeição completa sente que, agora sim, a festa pode começar.

Ainda de roupão abre a maletinha e com traços firmes a maquiagem vai transformando aquela figura meio sem graça. Corretivo, base, sombras coloridas e brilhantes, cílios postiços muito longos abrem o olhar. Por fim, um batom vermelho. Olha para o espelho e sorri para o reflexo que vê.

Abre a porta do pequeno armário e retira sua fantasia. Não, ela não foi comprada às pressas numa loja de departamento. Fora cuidadosamente escolhida no galpão de sua escola. Foi paga a longas e dolorosas prestações, mas que lhe presentearam com o gostinho bom do “eu posso”, “eu vou ficar linda”.

Veste-a. O corpo escultural fica a mostra. Sua profecia se concretizou.

A garota das semanas passadas ficara ali, trancada no pequeno quartinho, numa casa muito simples de comunidade. Enquanto aquela transformada pela beleza e exuberância das cores e brilhos desce a pé pelas ruelas com o coração acelerado. O Uber a espera. Entra. Enquanto percorre o caminho, a trajetória para a realização do sonho passa como filme por sua mente. Os sacrifícios, as opções, a difícil escolha e a certeza de que, sim, é verdade! É ela quem veste a fantasia.

O som da bateria já é ouvido de longe. O carro desliza devagar nas ruas que margeiam a grande avenida. Ele para, ela desce. Caminha devagar querendo saborear cada segundo, querendo viver por inteiro a realização daquele sonho. Com coração acelerado para diante do gigante. É ajudada a subir no lugar mais alto. Vê a multidão. Engole a seco. Apenas uma lágrima cai antes de ser tomada pela euforia. E canta! Canta o samba-enredo do começo ao fim da avenida. Saboreia os aplausos, agradece a chuva fina que refresca.

O sol brilha no céu quando a porta fecha, deixando do lado de fora aquela que o brilho transformou. Como a cinderela ela volta para borralho até o próximo carnaval.
 

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