O Mundo Azul

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
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Qua, 30 de Janeiro de 2019 12:43
O Mundo Azul

Cena 1: Um garotinho muito fofo para no jardim e, atento, olha as borboletas que voam de lá para cá. Acompanha os movimentos suaves até que elas voem para longe do alcance dos seus olhos. Só depois vê o cachorrinho saltitante e a mãe que vem ao seu encontro. Ele enxerga os detalhes primeiro, depois o todo. E essa percepção aguçada faz com que aprenda muito rápido coisas que os pais não ensinam. Muitos podem confundi-lo com uma criança superdotada. Ele gosta de lugares calmos, de previsibilidade.

Cena 2: Shopping ou supermercado. Pais aflitos perante uma crise de irritação de um menino que, muito agitado, chora e grita alto. Você e quase todos os clientes indignados pensam: “Meu filho nunca fez isso!”, “Ah, se fosse meu filho, eu dava uma boa palmada...”. Barulho, movimento excessivo e novidades não são bem-vindos, a menos que antes seja muito bem preparado para isso.

Ambas as cenas são do mesmo menino, uma criança autista.

Só no Brasil estima-se que sejam em torno de dois milhões dentro do espectro de autismo que se divide em Leve, Moderado e Severo. Mas a previsão é que ainda neste ano uma nova classificação será validada no mundo inteiro: Leve I e II, Moderada I e II e Severa I e II.

Não, autismo não é doença, é uma condição. Ainda não se sabe ao certo quais são os fatores que levam uma criança nascer dentro do espectro. Estudos pelo mundo afora mostram que a cada 70 nascimentos, um bebê nasce assim e que nos próximos anos, em cada 43 crianças, uma será autista. Então se na sua família ainda não tem, saiba, terá. Por isso, é tão importante conhecer o espectro.

A criança autista tem uma diversidade de sintomas e, por isso, exige complexidade no diagnóstico. Embora apresentem comportamentos parecidos, cada um possui um universo emocional e psíquico muito pessoal. Quanto mais leve, mais difícil diagnosticar.

Alguns sintomas podem ser sinais de alerta: apresenta dificuldade na fala – aqui vale a dica: quando mais cedo o diagnostico for confirmado, maior o desenvolvimento. Ama a cor azul, não gosta de areia, aprecia lugares silenciosos, precisa saber com antecedência o que vai acontecer. É muito ligado a rotinas e, por isso, pode ter algumas manias como ir para a escola sempre pelo mesmo trajeto: caminhando pelo mesmo lado da rua, subindo na mesma pedra, parando no portão para ver o cachorrinho, sempre metodicamente. Quebrar este ciclo o assusta e desequilibra. Aí vem o choro compulsivo confundido com a birra.

Quando apresenta condição Moderada ou Severa, podem apresentar ausência de medo frente a perigo, comportamento indiferente ou arredio, não se mistura com crianças, apresenta riso e movimentos inapropriados. Não mantém contato visual, é resistente a contato físico também, age como se fosse surdo, tem apego a objetos e pode ser hiperativo.

Por não ser uma doença, não há cura. Mas o tratamento com equipe multidisciplinar com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e psicológo, em clínicas especializadas, ajudam-no a seguir a vida de forma equilibrada. Muitos têm uma vida normal.

Conscientizar a sociedade e derrubar preconceitos são os grandes desafios das famílias e amigos de pessoas autistas.

Da próxima vez que você ver uma criança fazendo birra pense que talvez ela não seja mal-educada, mas um autista em desiquilíbrio. Não censure a família, um olhar amoroso e compreensivo e tudo que eles precisam naquele momento.
 
Suzi Aguiar, de Portugal