Queria ser protagonista

Publicado por Coluna Suzi Aguiar
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Qua, 17 de Abril de 2019 11:58
Sentada em uma das muretas que circunda a Plaza Del Obradoiro vejo a vida passar. As pessoas chegam em tribos de diferentes lugares do mundo. As roupas, os sotaques, os idiomas as separam ou agrupam, enquanto aqui, neste cantinho, me refugio para sentir a essência do lugar.

Estou em Santiago de Compostela. Não, não fiz o caminho de até seiscentos quilômetros capaz de mudar o rumo da história de muitas pessoas, mas gostaria. A grande praça é circundada por edifícios milenares, a princípio catedral e mosteiro, hoje também hotéis, lojas, museus.

Há muitos turistas que, como eu, apenas vieram conhecer o lugar. Entretanto, os peregrinos se destacam de imediato. Roupas surradas, mas confortáveis; rostos cansados, mas olhares serenos; corpos pesados, mas almas leves; passos curtos e ferimentos nos pés. Na mão o cajado, na mochila água e um punhadinho de objetos muito essenciais. Mas como bagagem principal a busca e o encontro de algo que muitas vezes nem eles sabiam o que era.

Nos museus espalhados pela cidade, vídeos mostram os lugares, as aldeias, as hospedarias que se erguiam pelo caminho para dar suporte aos andantes, desde o anúncio de que havia sido encontrado a sepultura do Apóstolo Tiago. Há também imagens de rostos cansados, de lágrimas, de dores, de diferentes semblantes que emocionam e incitam a vontade de se juntar a eles.

No final da caminhada, ao receber o último carimbo e o certificado, os peregrinos voltam ao centro da praça com a sensação de vitória pessoal. É comum vê-los deitar na praça e contemplar o céu ao anoitecer, não por mero cansaço, mas quem sabe, no desejo de, como o eremita, avistar as estrelas, cujas luzes o guiaram até o tumulo do seguidor de Jesus, que pregara pela Galícia a promessa de um novo reino nos primeiros 44 d.C.

A cidade de quase cem mil habitantes tem a mesma arquitetura do povoado que surgiu entre os séculos I d.C a V. Mas que só teve sua fundação por volta do ano 820, como conta a história. Hoje andar pelas ruelas é como percorrer labirintos cheios de gente. São turistas, peregrinos ou estudantes vindos do mundo todo cursar faculdades centenárias. A maioria deles ocupantes das inúmeras hospedarias e repúblicas espalhadas pelos casarios.

Penso no sacrifício para transportar as pedras, para levantar paredões. Quanto suor, cansaço, mãos calejadas, dores, para hoje, mil anos depois, estarmos aqui contemplando a história com o olhar, com as mãos e com o coração. Gratidão por poder presenciar tudo isso.

Não, eu não fiz o caminho, mas tudo o que vi foram lições para a vida. Mais uma vez testemunhei que bens materiais podem pesar muito e que os espirituais deixam leves

para se viver. Pena que fui apenas espectadora das trajetórias alheias, queria ter sido protagonista nesta história.
 
Suzi Aguiar, de Portugal