Jornal Correio Lageano publica sua última edição depois de 81 anos de história

Serra Catarinense – Assim é o texto de despedida da última edição dos dias 16, 17 e 18 de maio de 2020 do Jornal Correio Lageano…

Esta é a última edição do Correio Lageano. Está dito assim, na primeira frase, porque é como pedem as notícias históricas. Está dito com um misto de orgulho e tristeza, mas, acima de tudo, está dito de coração aberto e sem rodeios, como sempre foi ao longo de 81 anos.

Há o orgulho inafastável de quem lutou o bom combate. De quem, mais do que noticiar o desenvolvimento de uma região, fez parte desta luta. De um jornal que se integrou à sua comunidade até se tornar um símbolo dela e de seus anseios.

As edições chegavam às bancas e às casas dos assinantes sem escolher ocasião, nos bons e nos maus momentos. Havia uma história a ser contada e assim foi feito, sempre em busca de dias melhores e em defesa da liberdade de imprensa e dos direitos de todos. A cidade cresceu, a região se desenvolveu, o país mudou e durante oito décadas tudo isso foi registrado nas páginas do Correio Lageano.

Há a tristeza de quem não queria um ponto final. Dentre todas as lutas, a derradeira foi para se adaptar a um mercado que mudou drasticamente na última década. Jornais centenários da imprensa brasileira fecharam suas portas ou acabaram com as edições impressas muito antes de nós. O Correio Lageano resistiu até o seu limite, mas em um cenário já difícil, a crise da pandemia acabou por ser determinante. Junto com esta última edição impressa, encerra-se também a atividade dos nossos portais. Ainda assim, entre o orgulho e a tristeza, o primeiro é imensamente maior do que a segunda.

Este jornal é parte fundamental da história da minha família. É em nome dela que agradeço a todos que escreveram nestas páginas, a todos os anunciantes e, muito especialmente, a todos os leitores que nos receberam em suas casas e em suas vidas.

O Correio Lageano pautou sua existência pela crença em Lages, na Serra Catarinense, no Estado de Santa Catarina, no Brasil e na dignidade do ser humano. E no momento do adeus, a última palavra da última página da última edição deste jornal simboliza o que nos trouxe até aqui, e que desejamos que seja permanente na vida de todos: esperança.

Que jamais percamos a fé. Muito obrigada.

Isabel Baggio e Direção do Jornal Correio Lageano (1939-2020)

 

***Nota Portal SerraSC – Lamentamos o fechamento do nosso Histórico Correio Lageano. Para nós do Jornal Mural foi muito doloroso o fechamento em agosto de 2002, depois de 12 anos de circulação. Imaginamos agora a tristeza em fechar um Jornal Histórico de 81 anos. Perdemos todos nós moradores da Serra Catarinense.

Anselmo Nascimento, Portal SerraSC

***Nota Onéris Lopes – A trágica notícia de encerramento da versão impressa do Correio Lageano, dispensa comentários. Lembro do dia em que entrei na sala do seu Baggio, a convite da Olivete. Expus as razões porque pleiteada aquela oportunidade e a resposta daquele homem de idade avançada foi: “Coso, traga tua carteira amanhã”. Foi o passaporte para a maior experiência profissional da minha vida. De 17 de março de 1998 a junho de 2012, dediquei com muito orgulho e obrigação a maior parte da minha vida ao CL. Foi um tempo de muito aprendizado.
Os últimos anos não foram muito generosos com CL. Assistir seu desaparecimento da versão impressa, não representa apenas o fechamento de uma empresa. Mas o fim de uma era. Esse jornal senhores, foi o protagonista de tudo o que aconteceu em todas as áreas na Serra Catarinense nos últimos 80 anos. Esta mesma região, que o abandonou agora. Um jornal só fecha, porque está inviável financeiramente. Chorar o encerramento do CL é como lamentar a perda de alguém querido, que vimos morrer sem ter feito nada, quando poderíamos ter ajudado de alguma forma. Quem produziu com credibilidade as maiores notícias, hoje vira notícia. Infelizmente os últimos anos não foram generosos com o CL e seu fim, é um elo da nossa história que se perde. Obrigado Correio Lageano, por ter feito parte da minha história.

Onéris Lopes, jornalista

***Nota 1 – Olivete Salmória

A despedida das páginas de um jornal onde atuei por 24 anos

Não acreditava que viveria para ver um dos jornais mais antigos de SC simplesmente deixar de circular de um dia para outro. Trabalhei no jornal Correio Lageano há 24 anos (há mais de 40 anos atuando em jornais diários) e hoje ele está se despedindo dos meus leitores de Lages. É um acontecimento triste, me enche de pesar e de lembranças das muitas batalhas em busca dos dados para publicar a melhor informação possível. Na busca pela qualidade do trabalho realizado.

Foi uma vida!

E, olhando para trás, nesta minha trajetória, me enche de orgulho porque ao superar as dificuldades, muitas vezes tive de me superar a mim mesmo e as minhas limitações. Mais foi um bom combate!

E dele sai muito maior do que quando entrei pois o Correio Lageano foi muito importante nesta minha jornada.

É nele que encerro uma etapa para iniciar outra, talvez muito mais desafiadora, agora longe das páginas dos jornais.

Olivete Salmória, jornalista e colunista

 

***Nota 2 – Olivete Slamória

Lages calou-se! Já não tem quem fale por ela

Lages amanheceu neste sábado dia 16 de abril de 2020 sem voz. Seus atos, fatos, conquistas ou fracassos já não estarão mais impresso nas páginas dos jornais como registro para a posteridade. O nosso Correio Lageano calou-se.

Sem o registro do jornal não sei como vamos preservar nossa memória, onde estará o registro de nossa história e de nossa gente. Os rostos daqueles que por aqui passaram e construíram tudo aquilo que somos e fizemos. Você pode até achar que estou exagerando, que hoje estamos muito mais ricos de informação. Mas isso é algo que me preocupa desde quando a informatização surgiu em nossa vida. Na grande rede de computadores estão contidos todos os movimentos da humanidade, a história dos grandes feitos da humanidade. Mas com o passar dos anos, os novos fatos vão substituindo os velhos e para acessarmos os velhos registros é preciso procura-los e para procura-los precisamos saber o que estamos procurando. Como você vai então ter acesso àquilo que você não soube que existiu?

Como dizia aquele pensador em frente a um computador: aqui estão todas as respostas, mas como acessá-las se não sei quais são as perguntas?

É portanto, inquestionável a importância do registro impresso. É para sempre. Não permite que se falsifique, burle ou o negue.

Além de que, com o fim do jornal impresso, morre também aos poucos o jornalismo em sua verdadeira acepção da palavra. O jornalismo como sacerdócio, o jornalismo sério e responsável, uma vez que hoje a profissão está banalizada. Há muitos que da noite para o dia decidem abraçar a profissão, entendendo que para isso precisa apenas um espaço em uma emissora de rádio (que consegue facilmente se tiver alguém que o patrocine) ou um celular e disposição para registro dos fatos. A escola da vida se encarrega do resto! Bastando apenas um pouco de sorte para encontrar quem o patrocine e divida interesses. Assim, o jornalismo perde seu caráter de profissão e, os profissionais que se prepararam para isso, têm de abandoná-la porque já não consegue sobreviver.

Tudo isso nos faz refletir neste dia tão triste, quando o Correio Lageano fecha suas portas. Espero pelo menos que as pessoas que o comandaram por tantos anos (81 anos) tenham o cuidado de preservar tudo o que dele fez parte e para a servir como acerto do Museu do Correio Lageano.

Olivete Salmória, jornalista e colunista