José Ferreira da Silva, “O Aventureiro”: Cidadão lageano

Lages – “Aventureiro”, “Mensageiro da Amizade”, “Cidadão do Mundo” e agora “Lageano”, a sessão solene que outorgou ao jornalista, escritor e empresário José Ferreira da Silva o título de cidadão lageano aconteceu na noite desta quinta-feira (7 de novembro), no Plenário Nereu Ramos da Câmara. Participaram do ato familiares e amigos do homenageado, residente há 47 anos em Lages.

Proponente da solenidade, o vereador Lucas Neves contou que conheceu José Ferreira em 2007, ao fazer uma matéria para o jornal O Momento a respeito do livro “O Aventureiro”, no qual o homenageado conta a incrível história da sua volta ao mundo em uma lambreta, feito realizado no fim dos anos 60. “Nós temos de reconhecer as pessoas importantes na nossa sociedade, que tem uma história de vivência, uma relação com a nossa cidade. (…) Ele já era um cidadão lageano de fato, agora tem este título e se torna, de direito, um conterrâneo nosso”, disse Lucas.

O novo cidadão de Lages agradeceu a reverência feita pelos vereadores e a presença de quem esteve no plenário participando deste momento especial em sua vida. José Ferreira, como não podia deixar de ser, contou episódios da sua jornada de 50 anos atrás, a dificuldade em realizar o feito, os momentos onde passou fome, sede, medo, frio, tristeza, saudade. No entanto, os momentos de sofrimento não foram tão marcantes quanto um, de extrema alegria.

“O que mais me marcou foi uma passagem no Chile, entre as cidades de Viña Del Mar e Valparaíso. Lá conheci um radialista que me levou para passar a noite em um abrigo para menores. Lá vi, ao fundo, um garoto de aproximadamente sete anos que não veio me ver, como os outros meninos curiosos vieram. Ele não falava a dois anos, desde que lá foi deixado por seus pais. Entrava e saia da aula sem falar com ninguém, professor, médico, psicólogos, psiquiatras. Fui tentar falar com ele. Dei um abraço nele, mas não me respondeu o nome, nenhum gesto fez como resposta. Fiquei chateado, enojado da vida, com raiva de mim mesmo porque não tive como fazê-lo falar. Quando fui me despedir, chegando ao fim do portão, recebi um grito: “hey brasileño, buen viaje”. Era daquele garoto, que ficou um tempo abraçado comigo. Foi uma comoção muita grande com todas aquelas crianças que abraçaram o menino. Com tanta emoção, se eu morresse naquele instante, teria morrido feliz. Com a ajuda de Deus, pude fazer o bem para aquela criaturinha. Tudo de mal que passei foi balela perto disso. Não esqueço jamais desta cena, até os últimos dias da minha vida”, contou José Ferreira da Silva, tomado pela emoção.

Mais sobre o homenageado

Jornalista, escritor, comerciante, aventureiro, cidadão do mundo: é difícil definir em uma palavra o gaúcho José Ferreira da Silva. Ele é conhecido por ter cruzado o mundo de lambreta no fim dos anos 60. Nesta incrível jornada, atravessou 54 países, ilhas e estados independentes, somando mais de duas mil cidades, vilas e povoados. Pelo feito, ganhou a alcunha de o “O Mensageiro da Amizade” e uma menção na edição de 1998 do Guinness Book of Records como a mais longa viagem de lambreta ao redor do mundo. Recebeu títulos de “Cidadão do Mundo” e de “Bombeiro Honorário” nas três Américas (do Sul, Central e do Norte). Sobre este épico, escreveu o livro “O Aventureiro: a Volta ao Mundo de Lambreta”.

Nascido na cidade de Caxias do Sul-RS, em 6 de outubro de 1937, José é filho de Ignácio e Francisca Ferreira da Silva, sendo o mais novo de uma família de dez irmãos. Casado com Marli Maurina, tem uma filha, Katia Silvana, e dois filhos, José Johnny e Kleyton. Veio a Lages para um serviço de 60 dias e fez daqui o lugar de sua tranquilidade. É proprietário, entre outros estabelecimentos, da Casa Olímpia e vive há 35 anos em uma residência próxima à praça Joca Neves, onde mantém um museu com o acervo de sua vida.

Teve uma infância pobre e precisou se alimentar de frutas silvestres do mato próximo à sua casa em Caxias. Aos 7 anos, já ajudava seu pai vendendo banana nas ruas para o sustento da família. Com 12, passou a trabalhar na metalúrgica Abramo Eberle. Depois do horário de serviço começou os trabalhos de técnica e locução na rádio Caxias ZYF-3 e repórter de rua do jornal Correio Riograndense. Seguiu com a carreira após se mudar para São Leopoldo e Porto Alegre.

Com a chegada da maioridade, serviu a Força Aérea Brasileira (FAB), onde tirou o brevê e se tornou piloto comercial por cinco meses, sonho interrompido por um acidente quase fatal. Após a recuperação, virou garoto-propaganda em filmes comerciais e outdoors. Depois de dezenas de cursos profissionalizantes, tornou-se diretor comercial de uma empresa de eletrodomésticos e de um laboratório de produtos farmacêuticos. Casou aos 26 anos, mas um ano depois, sua primeira esposa faleceu.

A guinada em busca de um sonho

Passado um ano desta fatalidade, deu início a preparação de quatro anos para um sonho da adolescência: conhecer o mundo. A inspiração veio após conhecer, aos 15 anos em Porto Alegre, um colombiano que estava rodando o continente de bicicleta. Decidiu que o faria de lambreta, por ser econômica e de fácil manutenção em qualquer lugar que estivesse. Estudou línguas estrangeiras (inglês, francês, espanhol e alemão), fez aulas de defesa pessoal, mecânica, táticas de sobrevivência, comunicação e exercícios militares, sobre a cultura dos povos. Contou ainda com o apoio da Televisão Gaúcha, Jornal Zero Hora, Correio do Povo e da Pepsi para iniciar sua jornada no dia 5 de outubro de 1968.

Zé Ferreira cruzou a América do Sul, América Central, América do Norte até o Alasca. De lá partiu para a Europa, Oriente Médio, Índia, norte da África. De Tânger, no Marrocos, seguiu para Portugal e de lá em um navio até à nação pátria, fazendo escalas nas ilhas da Madeira e de Cabo Verde, Dakar no Senegal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Da Cidade Maravilhosa cruzou o país por mais três dias até chegar à Sapucaia do Sul-RS, onde residia sua família, em 29 de setembro de 1969. Os lugares que mais o impressionaram foram Machu Picchu, Punta Arenas, as ilhas de Páscoa, da Madeira e de Cabo Verde, Alaska e a Groenlândia.

Pela volta ao mundo de lambreta virou um benemérito do motociclismo brasileiro, agraciado pela Federação Gaúcha de Ciclismo e Motociclismo. Também foi homenageado pela Rede Globo por três produções jornalísticas e entrou no Livro dos Recordes (Guinness Book of Records) na edição de 1998, página nº 96. Fez dezenas de palestras sobre a aventura em congressos, escolas, faculdades, clubes e associações em muitas cidades ao redor do país e países da fronteira.

Atuou ainda como correspondente em vários jornais e revistas do país, na TV Cultura, de Florianópolis, TV Coligadas, Jornal Santa Catarina, de Blumenau, e O Povo, de Camboriú. Em Lages, trabalhou nas rádios Difusora, Princesa, Cidade e Guri, no jornal  A Notícia e na revista Serra News. Também foi membro da diretoria da Associação Lageana de Escritores (ALE).

Fotos: Aline Borba | Texto: Everton Gregório – Jornalista