My dad changed the world*

Por Suzi Aguiar

Tive renovada a esperança de um mundo melhor ao ouvir a pequena Gianna. Na inocência peculiar da infância, a garota de seis anos, nos ombros do tio, vê uma multidão deitada no chão, com as mãos na cabeça, em sinal de rendição e declara “*meu pai mudou o mundo”. Gianna não sabe como seu pai morreu, mas sabe que está todo mundo falando sobre ele.

Além dos Estados Unidos, diversos outros locais pelo mundo estão sendo palco de manifestações de repúdio ao racismo e em solidariedade pela morte de George Floyd. O segurança negro foi morto por sufocamento por um policial branco que o derrubou e imobilizou pressionando o joelho contra seu pescoço. Ele morreu gritando “eu não consigo respirar”.

Ele não foi ouvido pelo seu algoz. Mas o mundo o ouviu.

Quantas vezes nós sufocamos a voz e o grito de socorro de negros discriminados pelo Brasil afora? Quantas vezes nos omitimos em suas lutas?

Basta dizer, “eu não sou racista” para realmente não ser?

Vamos pensar só um pouquinho ao que se passa no íntimo das pessoas negras. São mães e pais que veem seus filhos vítimas de racismo, muitas vezes confundidos com bandidos. Quantas histórias de prisões indevidas apenas porque estavam passando num local onde houve um assalto?

A cor da pele é suficiente para que alguém seja considerado superior ou inferior aos demais?

Há racismo de vários tipos. Conheço algumas pessoas que materializam muito bem esta discriminação. Há aqueles que, de forma desvelada, xingam, apontam o dedo, os tratam mal. Outros dizem que não são preconceituosos, mas não se aproximam, não fazem amizade e muitas vezes nem os olham no olhar. Há também aqueles que tratam muito bem um negro pobre. Que o ajuda com dinheiro, alimentos, remédios e lhe dá trabalho. Mas quando se depara com um negro bem-sucedido sente antipatia gratuita. É quase pior do que ignorar. Eles têm direito de viver desde que permaneçam pobres? Quanta hipocrisia!

A abolição da escravatura no Brasil aconteceu em 13 de maio de 1888. Muitas leis foram necessárias para que os negros obtivessem o direito à liberdade. Mas os fatos mostram que elas não foram suficientes para abolir o racismo das mentes podres. Há séculos os negros passam por infindáveis absurdos, vítimas de pessoas inescrupulosas, débeis de caráter.

Negros, brancos, amarelos, pardos, todos somos pessoas e, por isso, temos o direito de estar onde quisermos, de pertencermos ao mundo que escolhermos. Merecemos, sobretudo, respeito.

Sim, Gianna. Todos nós esperamos que a sua certeza tenha eco. Que a morte de George Floyd realmente mude o mundo. Que o teu futuro seja muito diferente de tudo o que seu pai viveu. Que os negros tomem seu lugar de direito e quem não gostar disso que mude de planeta. Ficaríamos muito bem sem eles.

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