“Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”

Por Suzi Aguiar

Li esta frase na Capela dos Ossos da cidade de Évora, em Portugal. Nela todas as paredes são revestidas de ossos humanos. Mas, ao contrário do que se possa pensar, de assustador não tem nada. Foi construída no século XVII por três frades franciscanos, com o objetivo de transmitir a mensagem de transitoriedade e fragilidade da vida humana. Diante dos ossos não distinguimos os ricos ou pobres, pretos ou brancos, gordos ou magros. Sem nenhuma exceção, todos têm o mesmo fim e se igualam completamente.

Refletir sobre estes aspectos que permeiam os ciclos de vida e morte é sempre bem-vindo. Mais uma vez Finados está aí e os cemitérios recebem todos os cuidados. Os túmulos são lavados, pintados, as flores são substituídas. Em cada uma delas estarão os sentimentos de amor eterno, de saudade infinita, mas podem também falar de mágoas, tristezas pelo que se deixou de fazer ou de viver com aqueles que se foram.

Todos nós temos uma história de vida e são os traços do que somos e vivemos aqui que vão definir o quanto a falta será sentida. Ninguém é bom ou mau por inteiro, entretanto, as características mais intensas serão as mais lembradas. A nós que aqui estamos, nesta época especialmente, é comum refletir sobre os laços que nos ligavam aos que se foram. Tentar não repetir erros ajuda na busca da paz interior.

Muitas vezes passamos a vida inteira remoendo mágoas. Às vezes guardamos palavras que podiam esclarecer mal-entendidos, deixamos de pedir ou dar perdão. Histórias assim deixam uma fresta entreaberta e o ciclo não se fecha. Outras vezes a dor é tão forte e o inconformismo tão latente, que não deixamos o outro ir-se definitivamente. O luto prolongado adoece a todos, não apenas aos que saudade não se apieda. Os que estão a volta também se enternecem pelo sofrimento exacerbado.

Deixamos o outro ir quando falamos do seu nome sem nó na garganta, quando as lágrimas de saudade vêm acompanhadas do riso, fruto das boas lembranças. Deixá-lo ir não é esquecer, bem ao contrário, é internalizá-lo definitivamente no coração e, assim, tê-lo por perto para sempre.

Já tenho um bom número de pessoas queridas do outro lado. Procuro pensar que a vida aqui não é a única, nem a mais importante e que haverá, sim, o reencontro. Aceitar que somos finitos ajuda a superar a tristeza e a saudade.

Meu desejo é que todos os que precisaram devolver a Deus pessoas amadas, especialmente neste último ano, tenham a sensação de dever cumprido e paz no coração.

Nós outros que aqui estamos, um dia em ossos nos transformamos. Isto é certo! Vale refletir!