O País Pega Fogo

Por Vinícius Candido

Em 2016 o país descobriu através das palavras do Senador Romero Jucá (PMDB) que o Brasil tinha uma sangria que estava escorrendo. O próprio senador era um vírus que escorria nesse sangue e temia pelo futuro da sua posição no governo. Era o medo da Lava-Jato, operação que conduziu processos contra a corrupção na política do país. A cabeça pensante fundamental nesse processo foi Sérgio Moro.

ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro

Ontem, quatro anos após a fala de Jucá, Moro ainda era o grande nome do quadro Ministerial, composto com grandes nomes técnicos, tal como Mandetta e Guedes. Hoje, pela manhã, Moro retorna aos holofotes, dos quais ficou afastado por um tempo, devido suas ocupações; mas volta para demonstrar que a sangria ainda está aberta e que, se ficou por algum momento fechada, o remédio foi só paliativo.

Moro pede demissão do Ministério da Justiça após o presidente Jair Bolsonaro decidir exonerar do cargo o atual Diretor Geral da Polícia Federal Maurício Valeixo. O discurso do ex-Ministro da Justiça às 11 horas afirmou que teve que deixar o cargo porque a medida tomada pelo Presidente não conferia aos princípios da legalidade, da qual ele, é um notável defensor. De modo resumido, Moro disse que o governo mentiu e pode ter caído na ilegalidade cometendo dois crimes: interferência política na indicação do comando da PF, para defender alguns familiares do presidente de acusações investigadas pela mesma, e falsidade ideológica ao utilizar sua assinatura para exonerar Maurício Valeixo, sendo que ele não teria aprovado.

Além disso, Moro também afirmou que as mudanças de cargos da PF sem motivo aparente competem apenas à própria PF, pois é constitucional a independência dessa instituições nas suas ações, desvinculada ao poder executivo. Moro ressaltou que, nos governos anteriores, mesmo que licenciosos, os presidentes mantiveram a independência da instituição.

Desta demissão de Moro, podemos concluir pelo menos três conflitos inevitáveis. O primeiro conflito é o jurídico: Sérgio Moro deverá provar as suas acusações e, mesmo que não o ache necessário, o Presidente irá cobrá-lo disso, é certo. Bem como, Bolsonaro irá defender “a verdade” de sua demissão e deixar claro quais os rumos o país irá tomar: o da justiça segundo a Lava Jato, ou o das indicações políticas características da política velha; mostrando que isso é legal.

O segundo é um conflito ministerial. Foram 9 demissões ministeriais em um governo, das quais só contribuem para a instabilidade política. Dois pilares da retórica de eleição do Presidente, os Super ministros, Mandetta e Moro estão fora. A maioria de seus eleitores repercutiu essas demissões de forma negativa, isso significa perca eleitoral. Seria o terceiro pilar do ministério, também forçado a deixar o cargo, já que Paulo Guedes expressou vez ou outra insatisfação com sua falta de liberdade? A pergunta é retórica.

O terceiro conflito é o mais importante para o Presidente, no qual ele provavelmente corre perigo maior. A oposição já afirmou entrar em movimentação e provavelmente entrará com um pedido de impeachment, que não será um dos primeiros para a casa legislativa avaliar, seria o 25 caso venha acontecer. Outra ala do Congresso, a mais importante, o Centrão, está analisando o discurso de Moro e deverá se posicionar no decorrer do dia e do final de semana. Será a partir da análise do Centrão, a posição de Moro, que as chances de impeachment ao Presidente se tornarão mais claras ou, ao contrário, menos prováveis.

Mas Bolsonaro ainda tem o vice Mourão, da área Militar e que dá bastante sustentação ao seu governo. Apesar de que alguns dos militares também respeitam e apreciam Moro, o que é ponto negativo para o Presidente, já que manifestaram má disposição na atitude da demissão de Moro.
A verdade é que a sangria ainda não foi estancada, o ferimento no Governo reflete o ferimento do Presidente, um Líder amado por muitos e odiado por tantos outros que ainda não soube agradar a maioria. Seguimos ligados à Política.

**Vinícius Cândido, Joaquinense, Cientista Social (em 24 abr 2020)

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Clique Aqui e confira outros artigos do colunista Vinícius Candido.