Serra Catarinense já é produtora de lúpulo para cerveja

Serra Catarinense – Responsável pelo aroma e amargor da cerveja, o lúpulo tem ganhado espaço na agricultura brasileira, embora ainda muito timidamente. Contrariando estudos que dizem que a planta pode ser cultivada apenas em países do hemisfério norte (como Estados Unidos e Alemanha), devido a fatores climáticos, um grupo de produtores do Brasil está se desafiando e testando a produtividade e a qualidade do lúpulo plantado em terras tupiniquins.

Criada em maio de 2018, a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), que tem sede em Lages, já reúne 119 produtores, de 10 estados (além de ter um membro em Portugal). Desse total, 54 associados estão em Santa Catarina e cerca de 30 na Serra Catarinense, onde há, aproximadamente, 10 hectares de cultivo da planta.

Recente em todo o país, o cultivo com fins comerciais começou a ser feito há menos de uma década. Como quase todo o lúpulo utilizado pela indústria nacional vem do exterior, a produção brasileira tem sido destinada, em sua maioria, para utilização em cervejarias artesanais ou por cervejeiros caseiros.

O presidente da Aprolúpulo, Alexander Creuz, explica que o lúpulo é uma planta perene (não precisa ser plantada a cada nova safra), que pode ser conduzida comercialmente por um período de 12 a 15 anos. É uma planta trepadeira, pode atingir seis metros de altura, tem propriedades antibióticas, mas leva até cinco anos para atingir a maturidade.

“Até o quarto ano a planta ainda está desenvolvendo o potencial produtivo. Então, as primeiras safras são pequenas, tanto em quantidade quanto em qualidade dos compostos químicos, como óleos essenciais, alfa ácidos e meta ácidos, que é o que interessa para as cervejarias”, afirma.

Ele explica que, como no Brasil os cultivos são relativamente novos, a maioria ainda não alcançou a maturidade de produção. Boa parte destas plantações começou com, no máximo, 100 mudas plantadas, apenas para teste inicial.

“Mas o pessoal viu que dá certo e está investindo mais. Nesta etapa, começamos a identificar que o lúpulo produzido no país é de qualidade. Agora, é questão de tempo, um trabalho de formiguinha, para surtir efeito comercial lá na frente.”

Depois de comprovar que o lúpulo pode ser cultivado em terras brasileiras, o desafio dos produtores, agora, é atestar a qualidade desta produção. Creuz destaca que é preciso que os compostos químicos desta produção sejam bons.

“Para nossa surpresa, e alavancagem do negócio como um todo, tem produções de terceiro e quarto anos que estão tendo resultados de análises químicas iguais ou melhores que seus países de origem. Por exemplo, há uma variedade chamada cascade, que tem um range de alfa ácido [no país de origem] entre 5% e 8%. O cascade produzido por um produtor de Curitibanos, em seu terceiro ano, está dando 6% de alfa ácido, o que é um bom resultado para uma planta nova que teve de se adaptar às condições climáticas daqui.” O lúpulo é uma planta trepadeira, que pode chegar a 6 metros de altura

Plantio no interior de Lages

A Aprolúpulo é resultado de uma guinada profissional na vida de Alexander Creuz. Administrador de empresas, ele trabalhou por quase duas décadas no mercado financeiro. Depois de fazer um curso técnico em Agronegócio, decidiu colocar em prática o plano de negócios que elaborou como trabalho de conclusão de curso: cultivar lúpulo. A partir daí, surgiu a associação.

Ao lado da esposa Patrícia Cortez, que trabalhava no ramo hoteleiro, Creuz saiu de Florianópolis em busca de uma área adequada para o plantio de lúpulo. Foi quando encontrou, há dois anos, um terreno na Localidade de Cadeados, no interior de Lages.

Lá o casal começou um plantio experimental (o chamado matrizeiro), que está na segunda safra e é usado como uma espécie de laboratório, para fazer práticas de manejo diferentes entre as variedades.

Para esta safra, cujo plantio começa neste período do fim da primavera, o casal vai cultivar lúpulo em uma nova área, com pouco mais de meio hectare, para começar sua produção comercial.

“Nessa nova área, muda todo o sistema de condução em relação ao matrizeiro. Ela ficou pronta neste ano e as mudas serão plantadas na semana que vem. Em março deve ter a primeira colheita da área nova”, afirma Creuz.

Por ser uma cultura de alto valor agregado, o lúpulo não precisa de grandes extensões de terra plantada para ter um bom retorno financeiro. Por isso, Patrícia acredita que é uma boa alternativa para pequenos produtores agrícolas. “Já organizamos um Dia de Campo e tivemos a visita de uma família, que veio conhecer o manejo porque o filho estava vivendo na cidade e conheceu os processos de produção cervejeira. Isso despertou nele o interesse pelo plantio de lúpulo e despertou a possibilidade de voltar para o campo”, conta.