Surpresas No Cemitério

Por Suzi Aguiar

Nos últimos dias que antecederam o natal tivemos duas surpresas ao visitar o cemitério. A primeira foi dar falta de uma das arvorezinhas que adornavam o pequeno memorial da praça. Uma delas havia sido roubada inteira e olha que já tinha quase um metro de altura.

Há aproximadamente um mês, já haviam tirado uma muda bem grande e estávamos na expectativa de que a planta não morresse. Agora acabou a ansiedade, a plantinha foi viver em outro jardim. Levaram-na de vez. Claro, trabalho premeditado, pois foi preciso usar ferramentas para tirá-la. Aí fico me perguntando: será que existe mesmo o mito de que planta roubada pega mais rápido e fica mais bonita? Acho que não! É apenas uma boa desculpa para os safados de olho grande no jardim alheio.

A praça do Cemitério, antes chamada de Praça Santa Catarina, passou a ter o nome de Talita Aguiar Almeida em 2008, depois de ter projeto aprovado por unanimidade pela Câmara de vereadores. Talita foi uma jovem de 17 anos, morta por atropelamento, na rua principal de São Joaquim por um jovem embriagado. A praça não é uma homenagem a ela, mas sim, uma alusão ao movimento nacional de direção sem álcool. Devido ao acidente a vida de dois jovens e de suas famílias foram modificadas para sempre.

Desde então, nós os pais de Talita, passamos a custear todos os cuidados do local. Mantemos a praça sempre limpa e florida, os muros e acessos pintados. As flores são substituídas na entrada do inverno e da primavera, sem contar nas dezenas de mudas que precisam ser repostas durante o ano todo porque foram roubadas. Outro problema latente tem sido mantê-la limpa. O descaso com o que é público ainda é muito comum. Há papeis, garrafas e tocos de cigarro por toda parte. Sem falar nos cães que dormem nos canteiros de flores, nos cavalos que são colocados ali para pastar. Não contamos nem com o serviço de limpeza pública para varrer e retirar os lixos jogados.

Nossa luta com o lixo na praça, com a sujeira e o mato no cemitério começou em 2004. Já tivemos diferentes gestores municipais, a situação melhorou um pouco. Atualmente continuamos esperando uma resposta do vice-prefeito sobre nossa solicitação de limpeza e coleta de lixo da praça, que afinal de contas é de responsabilidade do município. Também são frequentes as queixas sobre pessoas com atitudes suspeitas e ameaçadoras transitando pelo cemitério, afastando a possibilidade de que mulheres possam visitar entes queridos desacompanhadas. Nada é feito sobre isso também.

Mas eu falava no início da crônica, sobre duas surpresas. Pois é, recebemos uma mensagem avisando que o vidro da capelinha de nossa filha havia sido quebrado e a bonequinha roubada. Talita morreu muito jovem, de forma violenta, o que comoveu muita gente. Durante estes 15 anos passados do seu falecimento recebeu muitas plaquinhas de graças alcançadas. A maioria delas não sabemos quem as deixou. Mas bem recentemente recebemos uma plaquinha e uma bonequinha de pano, segunda a pessoa, por Talita tê-la ajudado a passar por momentos difíceis. Agora a bonequinha não está mais lá. Foi roubada. O que nos deixa menos tristes é que talvez tenha feito um natal mais feliz para uma criança. Mas nem este pensamento altruísta consegue apagar a verdade: o cemitério continua a sofrer depredações e descaso.

Publicado em 6 jan 2020

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