A foto que voltou as minhas mãos 54 anos depois

por Mário Motta

Dezembro de 2012: depois de dar um giro pelo Estado de Santa Catarina na condição de âncora do Jornal do Almoço, à frente de um interessante projeto denominado Redação Móvel, estava voltando para casa.

O jornalista Mário Motta em 1958 e o Circo Teatro Motinha e Nhá Fia

O Projeto Redação Móvel levantou as prioridades estabelecidas nas propostas dos candidatos que venceram as eleições dois meses antes nas principais cidades do Estado e a TV me encarregou de entregar essas prioridades por escrito aos eleitos, representando os habitantes de suas cidades, seus eleitores ou não.

Depois de passar por Lages, que em 2012 elegeu como prefeito Elizeu Mattos (PMDB) e lhe entregar o documento em praça pública e ao vivo na TV, voltava para Florianópolis com mais um trabalho concluído.

Rumo a capital eu viajava só e também por isso resolvi ir sem pressa. Tracei o caminho via São Joaquim e assim era possível aproveitar para rever amigos. Faço isso sempre que posso e há qualquer tempo sempre é possível entrar em uma pequena ou grande cidade e visitar alguém que você não vê há algum tempo. Nem que seja apenas para lhe dar um abraço, saber como ele está, indagar dos familiares e seguir adiante. Afinal, nunca se sabe quando isso não mais será possível, por você ou pelo amigo visitado. Essa definição de tempo está fora do nosso controle.

Em São Joaquim, me esperava o radialista Rogério Ramos, com quem trabalhei por muitos anos na cidade de Lages e que já aposentado, mantinha como hobby um programa de entrevistas aos sábados pela manhã na Rádio Difusora/1530 AM, emissora pertencente ao empresário Rogério Pereira (Pirata).

Tão logo subi os degraus que levavam ao segundo andar do pequeno e agradável prédio em que a emissora funciona no centro da cidade, fui recebido por algumas pessoas que me conheciam pessoalmente ou apenas pela televisão, mas que atraídos pelas chamadas feitas pelo Rogério de que eu estaria no programa com ele, foram me dar um abraço, um carinho, enfim uma atenção como se fôssemos velhos conhecidos (e na verdade éramos mesmo).

Essa é a magia do picadeiro eletrônico chamado Televisão e é um dos mais importantes legados que ela nos dá e que se bem compreendido nos enche de alegria e faz valer cada segundo em vida. Depois da entrevista que tomou quase toda a manhã, muitas outras pessoas vieram aos estúdios da Difusora, afinal a cidade não é tão grande, a emissora é bem ouvida e o sábado era de um sol deliciosamente quente para um dezembro relativamente frio.

Findo o programa, um senhor bem vestido, de cabelos brancos, sentado calmamente num canto da sala mantinha-se em silêncio, atento a tudo. Perguntei quem era e o Rogério me disse: “Aquele é o seu Zé da Celesc”.

José Santos de Martim chegou em São Joaquim no dia 20 de julho de 1965 já casado com dona Nair de Martim. Ele subiu a serra juntamente com uma turma da Centrais Elétricas de Santa Catarina – Celesc para implantar em São Joaquim, a primeira subestação que permitiria o fornecimento da energia elétrica para a cidade.

A inauguração dessa unidade aconteceu em dezembro daquele mesmo ano e quase todos que trabalharam em sua implantação foram embora, mas ele ficou e desde então tornou-se o “Zézinho da Celesc”, uma espécie de gerente regional que subia em postes quando necessário ou recuperava quedas de energia nas residências com muita dedicação e capricho. Aposentou-se há alguns anos, mas continuou residindo em São Joaquim juntamente com sua esposa.

Quando todos se foram, o estúdio da emissora ficou liberado, ele veio em minha direção, se apresentou humildemente e me entregou um envelope em cujo interior havia uma fotografia já amarelada pelo tempo. Na foto, eu criança.

Sim, era essa foto em preto e branco do menino Marinho, o sanfoneiro de quatro baixos com sua gaitinha e uma dedicatória com a inesquecível caligrafia de minha mãe Nhá Fia:

“À Senhorita Magali, com o abraço do Marinho. Penápolis, SP, 08 de dezembro de 1958”.

Tremi na base emocionado

Mais de meio século depois, aquela fotografia voltava às minhas mãos e com ela, incríveis lembranças da cidade de Penápolis, por onde passamos com o Circo em pelo menos duas temporadas maravilhosas. Cidade que recebeu esse nome em homenagem ao Presidente Afonso Pena falecido na época em que ela foi transformada em Villa de São José do Rio Preto e mais tarde de Bauru e elevada à condição de município em 22 de dezembro de 1913.

Em Penápolis estudei parte do meu primeiro ano do curso primário num Grupo Escolar vizinho ao Circo que, em 1964, estava armado em frente a uma grande fábrica de bebidas (Bebidas Pesquero). Anos mais tarde, numa segunda temporada do Circo em Penápolis, já no final da quinta série, estudei no Instituto de Educação Dr. Carlos Sampaio Filho, cujo prédio imponente ainda fica na Praça principal que tem o mesmo nome da unidade escolar.

Mas, como aquela foto foi parar nas mãos desse senhor em São Joaquim? Minha curiosidade foi satisfeita quando ele disse que sua esposa era paulista e teria vindo da região de Penápolis. Há uns dois anos, quando visitavam seus parentes em Borborema (cidade vizinha à Penápolis), na casa de uma tia de sua esposa a visita coincidiu com o horário do telejornal SP TV 1a. Edição, programa exibido em São Paulo no mesmo horário em que eu apresento o Jornal do Almoço da RBS TV, há 33 anos em Santa Catarina, inclusive com o mesmo cenário padrão da Rede Globo. Na conversa surgiu o assunto do apresentador de SC que era filho de circenses e seu Zezinho lembrou que o Circo de meus pais já havia passado pela região quando eu ainda era um menino.

Ao ouvir a história, a tia de dona Nair se levantou, abriu a gaveta de uma cômoda com muitas fotos antigas guardadas, tomou essa foto e indagou: “Seria esse o menino da TV lá de Santa Catarina?” Pois não é que era! Pois a tia de sua esposa a quem eles visitavam é a “senhorita” Magali (do autógrafo).

Emocionada ela pediu: “Então levem a foto e quando o encontrarem, diga-lhe que nós nunca esquecemos de suas passagens com o Circo dos pais por aqui. Diga ainda que um banco que o Motinha doou para nosso jardim continua nos servindo, embora numa praça secundária da cidade. Mas na memória e no coração de nossa gente, eles continuam sendo lembrados e reverenciados”.

***Publicado em 12 junho 2020 em sua Coluna do Jornal Hora de Santa Catarina

Sobre Mário Pinto da Motta Júnior

Mário Pinto da Motta Júnior, 68 anos (Santo André-SP, 25 de março de 1952) é jornalista, radialista e apresentador de televisão brasileiro. Atualmente apresenta o Jornal do Almoço da NSC TV Florianópolis, é apresentador na CBN Diário e colunista no Jornal Hora de Santa Catarina.

Mário Motta é filho do radialista paulista Mário Pinto da Mota (“Motinha”) e de Nair de Campos Motta (Nhá Fia), que apresentavam o programa “Na Serra da Mantiqueira” na Rádio Bandeirantes de São Paulo na década de 1950. Após seu nascimento, o casal deixou o rádio e passou a viajar pelo interior do Brasil à frente do Circo Teatro Motinha e Nhá Fia. Ainda criança, Mário Motta trabalhou no circo de seus pais, apresentando números de acrobacias, trapézio, atuando como palhaço, entre outros. Chegou a estrelar ainda o filme Maria 38, de 1960, dirigido por Watson Macedo. Com o fim do circo em 1965, a família se fixou na cidade paulista de Tupã.

Formou-se em Educação Física pela Escola Superior de Educação Física da Alta Paulista, em 1973, de onde seguiu ingressando no magistério. Iniciou a carreira radialista na Rádio Piratininga, de Tupã, onde realizou diversas funções.

Mudou-se para Santa Catarina em 1975, para trabalhar como professor de educação física em Lages. Nesse período também trabalhou na Rádio Princesa e Rádio Clube de Lages como locutor esportivo. Iniciou seu trabalho na televisão cinco ano mais tarde, ao ingressar na TV Planalto de Lages. Assumiu a Chefia do Serviço Pedagógico da Educação Física na Secretaria de Estado da Educação e do Desporto em Florianópolis, em 1986. Paralelamente, nesse mesmo ano, coordenou o jornalismo da sucursal da TV Planalto em Florianópolis. Pouco tempo depois foi contratado pela RBS TV, onde atua há 34 anos como âncora do Jornal do Almoço; há 24 anos no programa Notícia na Manhã na rádio CBN Diário, além de colunista no Jornal Hora de Santa Catarina há 14 anos.

Em 30 de novembro de 2019, apresentou o Jornal Nacional, como comemoração dos 50 anos deste telejornal, ao lado da potiguara Lídia Pace. Foi apresentado à população como um convidado de honra, uma vez que é o âncora de um mesmo telejornal local há mais tempo dentre todas as afiliadas da Rede Globo no Brasil, e novamente voltará a bancada do JN, agora fazendo parte do rodízio fixo.

“Enquanto eu puder sentir prazer de vir fazer o que eu faço, eu virei. Se a gente encontra prazer no trabalho é como se a gente não trabalhasse. Eu sinto muito prazer no que faço ainda. Só vou parar a hora que esse prazer se diluir ou na hora que eu perceber que tenho que parar mesmo”, afirmou o apresentador na homenagem dos 30 anos de RBS, hoje NSC, em 5 maio de 2016.