A vida em chamas

Por Suzi Aguiar

O fogo arde, enquanto toda a mata queima. Mas nem assim esconde sua beleza. Mostra a paleta e cores em degradê que vai do vermelho, passa pelo ocre, alaranjado até o amarelo. O cenário é lindo, mas a degradação amedronta.

Por onde passam, as chamas destroem tudo. Consomem árvores centenárias que foram palco de beleza e vida, abrigo a milhares de aves e insetos, sombra para incontáveis animais silvestres. Agora, vestidas de negro, mal conseguem ficar em pé. Os pássaros em luto silenciaram seu canto, mas conseguiram alçar novos voos.

Enquanto as chamas avançam reduzem tudo a cinzas, sem nenhuma piedade. Animais feridos são encontrados por toda parte, mas nem todos tiveram a mesma sorte. A subtração é a conta mais comum: menos árvores, menos animais, nenhuma mata sobrevivente.

Margeando o contorno das chamas estão eles, heróis anônimos, os soldados bombeiros que dia após dia passam horas no exaustivo trabalho de cessar o fogo no Pantanal. No fim da tarde, é hora de voltar para o acampamento e ser substituído por um novo pelotão que trabalhará noite à dentro.

Carlos, já quase sem fôlego, abafa as últimas chamas de sua tarefa. De repente, o vento vira e ele resolve prolongar seu afazer por mais algum tempo. O vento irregular e o mato muito seco são uma combinação perigosa. Sem que de tempo de qualquer reação, ele se vê cercado pelo fogo.

A densa fumaça dificulta a respiração, as roupas, embora apropriadas para o fogo, dificultam os movimentos. Ele se vê sozinho, mas não entra em pânico. Anda em círculos a procura do melhor lugar para atravessar as chamas. Está exausto.

Mas não, não está sozinho. Encontra outros tão perdidos quanto ele. Nenhum fala, nenhum expressa sua dor, embora tenham marcas de queimaduras pelo corpo. Uma iguana ainda pequena caminha tão lentamente quanto a velha tartaruga.

Carlos se abaixa. A iguana, tão débil, se deixa pegar. A tartaruga com as patas queimadas não sai do lugar. Com dificuldade os pega no colo. Ele precisa salvá-los.

Sentindo a falta de Carlos, os brigadistas voltam. Alívio. Outros combatentes assumem o trabalho, enquanto os demais voltam ao acampamento levando os animais feridos. Pelo caminho cruzam com um jacaré jaz, na terra rachada.

Depois de um banho, de uma sopa quente, a cama é o melhor remédio. Mas Carlos não dorme. Na sua cabeça o barulho do fogo se mistura com o das árvores caindo. O quintal do Brasil está em chamas.

Publicado em 28 de setembro de 2020.