Alfabetização e independência

Por Suzi Aguiar

Estamos na semana da independência e fui tomada de saudosismo. Não tem como não fazer um paralelo com as comemorações do meu tempo de criança e as da contemporaneidade. Naquelas semanas da minha infância havia homenagens diárias que sempre iniciavam com hasteamento das bandeiras e sessão cívica nas escolas e repartições públicas. Nelas cantava-se os hinos. Para mim o da independência sempre foi o mais emocionante.

Na inocência da minha infância ser patriota era amar o Brasil intensamente: Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil. Vivíamos na época da ditadura. Aprendíamos muito cedo a medir palavras em público, mas o amor e respeito pelo país era igualmente ensinado. Bem, isto faz um tempão, melhor não entrar em detalhes.

De forma um pouco irônica, no dia 8 de setembro comemoramos o dia da alfabetização. Duas datas importantes que têm algo em comum. Estamos carecas de ouvir que não há pátria livre se o povo não for alfabetizado.

Há muito tempo a ideia de que juntar letras e formar sílabas era sinônimo de ser alfabetizado. Nosso país é enorme, mas 7% dos brasileiros ainda são analfabetos, o que abrange 11.5 milhões de pessoas. Há ainda 29% da população que é considerada analfabeta funcional. Isto é, lê mas não interpreta. E esta dificuldade de interpretação se divide em três níveis diferentes de gravidade.

Ouvimos também que povo alfabetizado é povo livre. Que o conhecimento abre fronteiras.

Verdade!

Mas não é de todo verdade a ideia de que só os analfabetos são passíveis de manobras do governo. Um índice bem expressivo de pessoas ditas cultas e inteligentes que podem cometer equívocos, por se limitarem a ouvir apenas um lado do discurso, quando na verdade há diferentes ideias e princípios a analisar. Optar por apenas um prisma, sem se dar a possibilidade de relativizar, nos faz crer que este cidadão é tão limitado quanto um analfabeto funcional, mesmo que tenha um diploma universitário.

E aí a alfabetização não leva a independência.

Somos ainda dependes de leis mal feitas e de políticos corruptos. Bom, vale o questionamento: será que sobrou algum deles que não aderiu a moda trazida da Europa lá no ano de 1500? Tenho minhas dúvidas, afinal gato escaldado tem medo de água fria.

Meu desejo vai ao pé da letra, que todos, alfabetizados ou não, saibam escolher seus próximos representantes para alçarmos novos voos em busca de um Brasil independente.

Claro, sei. Ela foi proclamada em 1822…

Publicado em 7 de setembro de 2020.