Basta abrir a janela

Por Suzi Aguiar

É São Joaquim. E inverno!

Mas por estas bandas o calorzinho andava dado as caras com mais frequência do que o normal. E todos estávamos felizes, afinal, viver no frio é só para os fortes.

O céu tem estado azul, o vento anda calmo e a labuta aqui no sítio agora é das mais leves. O gado se alimenta nas pastagens caprichadas. E o canto das aves se espalha ao redor da casa, onde dançam alegres de comedouro em comedouro, que aqui são muitos. A gente ama pássaros, mas livres. Captura-los só nas lentes do binóculo que deixo sempre a mão. São tantos e de tantas espécies que nem dá pra listar. Mas o que mais me encanta é a família de quatro seriemas que vem comer o milho jogado ao pé da porta. Ah, e as curucacas? Estas vivem em bandos nos pinheiros ao redor da casa.

E nós, que já estávamos de trouxas prontas pra voltar pra casa, fomos pegos mais uma vez com a notícia de que uma grande massa polar que está chegando com a promessa de ficar por três dias. Será? Já tivemos esta afirmação há alguns anos. Mas a neve que não caiu aqui, foi apreciada no morro do Cambirela. Todos lembram, é claro.

Mas qual joaquinense resiste a uma boa neve?

Com a tranquilidade de quem já se aposentou, agora é gastar tempo pensando em quais gostosuras vamos atacar nestes dias. Um panelão de feijoada, ou quem sabe buchada? Dá pra pensar num entrevero também. Mas o que não pode faltar é o bom e velho caldinho de feijão com bacon, né? É só decidir a sequência. Os bolinhos fritos e a rosca de coalhada? São vedetes permanentes.

Se para nós sentir o frio atravessar os pesados agasalhos até penetrar pele adentro é sensação comum, para os turistas é uma atração a mais. Sentir o nariz arder, a ponta dos dedos das mãos adormecerem e o pé encarangar é uma aventura digna de muitos registros.

Sempre que uma massa polar chega, os noticiários não se cansam de exibir imagens dos campos branquinhos e repetir as temperaturas prováveis para o período. Muitas vezes as mais baixas são registradas no Morro da Igreja, em Urubici, e muitas pessoas sonham ir conhecê-lo. Mas o que não divulgam é que em São Joaquim ninguém precisa enfrentar uma íngreme estrada de terra, ou visitar apenas um local para sentir o frio intenso. Aqui, basta abrir a janela e o frio está ali no lado de fora, de maneira intensa, em qualquer parte do município.

Entretanto, o que não podemos esquecer é que estamos em meio a maior pandemia registrada na história. O número de infectados e de óbitos por Covid-19 continuam altíssimos. O que fazer então com o povo que teimar em dar as bandas por aqui? A gente tem visto muitos turistas que, cansados de ficar em casa, fogem para um passeio demorado ao ar livre.

E agora? Cuidados redobrados!

Publicado em 20 de agosto de 2020