Suzi Aguiar

Neto, o melhor presente

Por Suzi Aguiar

Acho que nunca desejei algo tão intensamente quanto ser avó. Mas nem de perto sabia o real valor dele em minha vida. Desde que soube que meu neto estava a caminho, eu passei a contar cada segundo fazendo voar meu imaginário. Mas o que eu realmente não sabia é que nada sabia a respeito da explosão de emoções que estaria por vir.

Desde que o vi pela primeira vez, a paixão foi instantânea! Tão frágil, mas capaz de nos fazer tão fortes. No momento em que em oração o entreguei a proteção de Deus, a emoção molhou minha face. As lágrimas pareciam um imenso batalhão de soldadinhos de chumbo pulando em fila indiana do rosto ao ombro. Não, eu não estava chorando, apenas tomada pelo desejo de que todas as bênçãos fossem enviadas aquele pequeno serzinho que já era tão amado.

Ser vovó me fez uma babona! Basta apenas olhá-lo, ali sentado no tapete da varanda, inventando as mais criativas brincadeiras para me derreter. O sorriso não sai dos lábios quando penso nele ou quando falo de sua existência.

Bem diz o ditado que “ser vó é ser mãe com açúcar”. Não há compromisso, nem horário marcado. Qualquer hora é tempo para sentar no chão e facilmente ser transformada em algum personagem de desenho ou virar um bandido que o policial quer prender.

A melhor frase para ouvir é sempre “Hoje é a vovó quem vai contar a historinha para eu dormir”. E aí me perco inventando histórias cheias de bruxas, fantasmas, fadas e super-heróis. Como a histórias da vaquinha mágica que transforma todas as flores do jardim em pirulitos, que o leva no pomar onde as macieiras dão sorvetes, ou para beber suco fresquinho saído da torneira do jardim.

A doçura de ser avó é contar horas, minutos e segundos até a próxima chamada de vídeo ou até a próxima chegada. E quando o vejo bem ali, do outro lado, meu maior sorriso me ilumina e sou a pessoa mais feliz do mundo.

Ser avó é preparar batata frita quentinha fora de hora, é esperar o neto com todas as suas delícias favoritas. É burlar as regras da família e conspirar para as mais divertidas aventuras e compartilhar segredinhos inocentes.

Acompanhar o desenvolvimento de um neto é receber a cada dia o mais surpreendente presente que um filho pode dar aos pais.

Para ele quero um mundo melhor, quero a natureza mais bem cuidada, quero a paz entre os povos, boas escolas para todos, a descoberta da cura de muitas doenças. Quero governos mais responsáveis, quero o fim da corrupção. Para ele quero um mundo sem medo!

Por ele quero ficar bem velhinha para poder desfrutar do seu amor por muito mais tempo.

Publicado em 27 de julho de 2020

 

170 – Help! Quero minha vida de volta

Por Suzi Aguiar

“Mãe, por que não posso ir ao play?”

Ai meu Deus, que bagunça é essa? Quem virou o pote de pipoca no tapete da sala? Vocês não sabem que lugar de papel de bala é na lixeira? TV ligada o dia inteiro, que barulheira! E este som alto? Por que a mesa de centro está afastada? Menino, você ainda não tomou banho? Vá tirar este pijama para almoçar! Troquei estas fronhas hoje, por acaso sala é lugar de travesseiro? Você já leu o livro que a professora recomendou? Arrume esta bagunça! Tô cansada de recolher brinquedos! Desliga este computador, já é quase duas horas da manhã, vá dormir!

“Mãe, faz batata frita pro almoço?” “Mããããeee, eu quero ir à casa da vovó! Deixa, deixa, deixaaaaa?” “Mãããaeeee, por que não podemos ir à piscina?”

A conta do supermercado aumentou. Os dias demoram a passar. Não posso mais ter um tempinho para o lanche com minhas amigas. E o tal home office é puro stress: é criança que chama, campainha que toca, cachorro que late, tarefa dos filhos, aula on-line. E a tal divisão de tarefa? Só se for 70% x 30%. O caos está instalado faz mais de cem dias. Estou muito cansada!

Quando as aulas recomeçam mesmo? Quando o antigo normal vai dar uma palhinha para a gente?

É tão cansativo ficar com os filhos em casa por tempo integral… Durante o ano a obrigação de levá-los à escola, na aula de inglês, de esporte ou dança faz minha vida ser muito corrida, mas a certeza de que eles estão em atividades importantes e com professores, me dá tranquilidade.

Mal o dia amanhece e já escancaro o meu sorriso amarelo e a cara de cansaço. Para falar bem a verdade, estou chegando à exaustão. Estou agitada, falo mais alto do que de costume, fico irritada com facilidade.

Normalmente o transcurso dos dias letivos passam depressa demais. Mas este mesmo período em isolamento social parece que demora muito a passar. Que suplício! Como os professores aguentam 30, 35 crianças gritando o dia inteiro? Aliás, preciso parabenizá-las quando nos encontrarmos por aí. Ser professora não é tarefa fácil! Tô fora!

Quero minha rotina de volta. Quero poder sair a tarde toda se quiser, quero curtir uma cervejinha com as amigas, quero ler um livro tranquilamente. E que tal poder sair para jantar com o meu amor? Seria o máximo! Quero a casa vazia para fazer faxina. Quero trabalhar sabendo que ao chegar em casa tudo estará do jeito que deixei. Quero de volta a correria, os horários marcados. Quero de volta o sossego dos dias de aula.

Que bom seria se tudo isso não passasse de devaneio! Mas não! Não é. O corona está aí desestabilizando nossas vidas, nos obrigando a mudar hábitos e conceitos e, pior, levando embora pessoas queridas pelo mundo afora.

Mas tudo vai passar, temos que acreditar, respirar fundo, se acalmar e continuar.

Publicado em 27 de julho de 2020

Uma pergunta não quer calar

Por Suzi Aguiar

O tempo continua sua caminhada ininterrupta e não vemos a luz no fim do túnel. Já se passaram mais de cem dias e

a esperança de que tudo passaria logo já se extinguiu. Não que duvidemos que a vacina para o Convid 19 será descoberta. Mas sabemos que o isolamento social e os cuidados ainda nos acompanharão por um bom tempo.

Sou professora, já que dizem que quem foi rei nunca perde a majestade. Sendo assim, meu olhar muito preocupado tem sido para a educação. E, concluo que num país onde os ministros são escolhidos de acordo com a ideologia do presidente e já temos uma coleção dos ex deste governo, torço para que o novo nomeado para o cargo, Milton Ribeiro, finalmente faça um bom trabalho, mas… Com as escolas fechadas e a educação largada as cobras vamos arrastando talvez a maior crise educacional que o país já viveu.

Ter os filhos em casa por tempo integral e sem estarem em período de férias é um algo inusitado. Aliado ao fato de que a maioria dos pais está fazendo home office, todos tem enfrentado grandes desafios.

As mudanças foram enormes também para as crianças e adolescentes, cujo mundo gira em torno do seu querer, onde a brincadeiras e os amigos têm papel primordial. Mas são os pais que pagam esta conta. Estavam acostumados com os filhos em casa apenas nos períodos de férias, quando viajar, passear, sair para comer uma pizza eram programas comuns que acalmava a todos, quando o stress da convivência teimava em pairar.

O que fazer agora, o tempo todo com eles, sem poder sair de casa?

Sabemos que ao irmos para o trabalho deixamos os filhos na escola, temos a segurança de que estão no lugar ideal, convivendo com seus pares e desenvolvendo todo o seu potencial. Orquestrados por uma equipe de profissionais cujo objetivo é exclusivamente propiciar o aprendizado com as mais diferentes técnicas e intervenções. Além do carinho e cuidado dedicados, especialmente, aos menores.

E agora?

Como incentivar as crianças a fazer as tarefas diárias, a assistir as aulas on-line? Como explicar conteúdos que não lembramos mais, ou que nunca estudamos?

E os pais se perguntam: Como competir com o celular acessível o tempo todo? Como convence-los de que não é hora de assistir TV? Como faço o almoço se viro as costas e meu filho larga o lápis e não faz mais nada? Ele não consegue pesquisar nada sozinho, será que na escola também é assim?

Quando as aulas presenciais vão retornar?

Todos estes questionamentos trazem angústia porque não vemos no horizonte a perspectiva. As pessoas estão ficando cansadas. Os pais e mães angustiados. As crianças com saudade dos colegas e das professoras e os adolescentes com saudade da liberdade de ir e vir. Como as dúvidas, os aprendizados também são infinitos.

Mas uma pergunta não quer calar:

Será que os pais continuam valorizando da mesma forma que antes os professores de seus filhos?

Publicado em 13 de julho de 2020.

 

My dad changed the world*

Por Suzi Aguiar

Tive renovada a esperança de um mundo melhor ao ouvir a pequena Gianna. Na inocência peculiar da infância, a garota de seis anos, nos ombros do tio, vê uma multidão deitada no chão, com as mãos na cabeça, em sinal de rendição e declara “*meu pai mudou o mundo”. Gianna não sabe como seu pai morreu, mas sabe que está todo mundo falando sobre ele.

Além dos Estados Unidos, diversos outros locais pelo mundo estão sendo palco de manifestações de repúdio ao racismo e em solidariedade pela morte de George Floyd. O segurança negro foi morto por sufocamento por um policial branco que o derrubou e imobilizou pressionando o joelho contra seu pescoço. Ele morreu gritando “eu não consigo respirar”.

Ele não foi ouvido pelo seu algoz. Mas o mundo o ouviu.

Quantas vezes nós sufocamos a voz e o grito de socorro de negros discriminados pelo Brasil afora? Quantas vezes nos omitimos em suas lutas?

Basta dizer, “eu não sou racista” para realmente não ser?

Vamos pensar só um pouquinho ao que se passa no íntimo das pessoas negras. São mães e pais que veem seus filhos vítimas de racismo, muitas vezes confundidos com bandidos. Quantas histórias de prisões indevidas apenas porque estavam passando num local onde houve um assalto?

A cor da pele é suficiente para que alguém seja considerado superior ou inferior aos demais?

Há racismo de vários tipos. Conheço algumas pessoas que materializam muito bem esta discriminação. Há aqueles que, de forma desvelada, xingam, apontam o dedo, os tratam mal. Outros dizem que não são preconceituosos, mas não se aproximam, não fazem amizade e muitas vezes nem os olham no olhar. Há também aqueles que tratam muito bem um negro pobre. Que o ajuda com dinheiro, alimentos, remédios e lhe dá trabalho. Mas quando se depara com um negro bem-sucedido sente antipatia gratuita. É quase pior do que ignorar. Eles têm direito de viver desde que permaneçam pobres? Quanta hipocrisia!

A abolição da escravatura no Brasil aconteceu em 13 de maio de 1888. Muitas leis foram necessárias para que os negros obtivessem o direito à liberdade. Mas os fatos mostram que elas não foram suficientes para abolir o racismo das mentes podres. Há séculos os negros passam por infindáveis absurdos, vítimas de pessoas inescrupulosas, débeis de caráter.

Negros, brancos, amarelos, pardos, todos somos pessoas e, por isso, temos o direito de estar onde quisermos, de pertencermos ao mundo que escolhermos. Merecemos, sobretudo, respeito.

Sim, Gianna. Todos nós esperamos que a sua certeza tenha eco. Que a morte de George Floyd realmente mude o mundo. Que o teu futuro seja muito diferente de tudo o que seu pai viveu. Que os negros tomem seu lugar de direito e quem não gostar disso que mude de planeta. Ficaríamos muito bem sem eles.

Publicado em 5 de junho de 2020.

Compre uma vírgula

Por Suzi Aguiar

Assisti ao filme Vendedor de Sonhos, embasado no livro de Augusto Cury. E a expressão compre uma vírgula me deixou impressionada. Não sou daquelas pessoas que mergulham em livros de autoajuda. Na verdade, li pouquíssimos até hoje. Tenho um pouco de antipatia por este tipo de literatura. Acho um pouco pretencioso dar receitas de sucesso, de como se portar, de que maneira ser… Mas fiquei mexida com este filme! Embora não tenha lido o livro, fiquei tentada a comprá-lo, pois sempre são mais completos do que a história contada em filme.

Quantas mil vezes já encerramos com um ponto uma conversa, um acontecimento, um caso, uma história? Incontáveis vezes, certo?

Quantas vezes tivemos uma discussão com um irmão, com um amigo querido e ficamos chateados com a situação? Embora tenhamos discutido sem fim, não chegamos a um consenso. Colocamos ponto final na história e estragamos uma relação que era bonita, respeitosa.

Quantas vezes um amor complicado acaba se dissipando por má vontade ou indisposição de uma das partes, ou das duas, para resolver as diferenças?

Quantos pais e filhos, mães e filhas passam a vida inteira infelizes por palavras ditas em horários errados, ou por coisas não ditas, situações não resolvidas?

Uma vírgula era o que o Vendedor de Sonhos oferecia.

Uma vírgula antes de decidir pelo suicídio. Uma vírgula antes de definir pelo trabalho em detrimento da família. Uma vírgula antes de passar a impressão de ser simples ou antipático. Uma vírgula antes de definir sobre um happy hour com colegas ou assistir ao filho, ao sobrinho se apresentar na festinha da escola.

Quantas famílias não se desestruturam porque um ponto final foi usado muito depressa e sem relativização? Quando tomamos decisões, mesmo que cotidianas, precisamos analisar, ponderar os prós e os contras antes de nos decidirmos sobre como finalizar a história.

Escolher bem o momento de comprar uma vírgula pode fazer toda a diferença. Algumas vezes elas quase nada valem, em outras, pode ser o maior investimento de nossas vidas. Sim, pode ter um valor enorme!

Fiquei pensando quantas delas eu deveria ter comprado ao longo da minha caminhada. Quantas coisas poderiam ter sido diferentes se eu não tivesse dado a história por terminada.

Preciso, sim, de muitas vírgulas. Um estoque delas.

E você?

Publicado em 18 de maio de 2020.

São Joaquim é terra de…

Por Suzi Aguiar

Nesta terça-feira fui convidada a participar de um vídeo que mostra opiniões sobre o que é São Joaquim para os seus cidadãos. Fiquei lisonjeada, já não vivo na cidade há 36 anos.

Como sintetizar tudo o que representa para mim num vídeo de 20 segundos? Em frente ao computador, meu fiel escudeiro, comecei a difícil tarefa.

São Joaquim é terra de encantos mil, como bem disse Adolfo Matos Lima quando escreveu o nosso hino. São Joaquim é terra de belezas naturais. Em sua vegetação exuberante, araucárias imponentes abrigam o pôr do sol.

Em cada estação as macieiras enfeitam a paisagem de diferentes formas. Ficam belas na primavera com suas flores branquinhas. No verão, os galhos carregados de maçãs nos dão a certeza de que pecado é não prová-las. E aí chega o outono pintando as folhas nos tons ocres. Tão belas presas aos galhos, quanto cobrindo o solo num tapete fofo. E, no inverno, as árvores despidas criam uma cena de filme de suspense. Como não ver poesia aqui?

Temos as melhores maçãs do Brasil, o mel premiado como o melhor do mundo por duas vezes. Produzimos também goiaba feijoa, mirtilo, além das frutas produzidas de forma artesanal como a amora, figo, physalis, pêssego, pero figo e tantas outras.

A rosca de coalhada, a bijajica, o pinhão na chapa, na fogueira, a paçoca, o entrevero e o frescal são delícias que carregam nosso DNA. Além disso impossível vir a cidade e não ser recebido com uma cafezada!

São Joaquim é terra de frio, de um céu muito azul logo cedinho. É terra de geadas intensas deixando tudo mais bonito. Você já parou para observar sem pressa as flores congeladas, as velhas cercas de madeira branquinhas, os fios de luz tomando novas formas e espessuras?

É terra de vinhos e vinhedos que dão ainda mais charme, a certeza de crescimento econômico e expectativa de muito sucesso como outro viés para o turismo.

É a terra da neve, título que ninguém pode nos tirar. Só aqui podemos assistir ao balé de flocos macios e muito alvos dando espetáculo. Basta abrir a janela e o frio está bem ali, do lado de fora. Não, não é preciso subir em cima do morro, no alto da serra…

São Joaquim é terra de um Boulevard que deixa o centro charmoso e convidativo para um passeio a pé. É terra de se apaixonar.

É o lugar que eu defendo, que eu exalto.

Sou uma porta voz das belezas que aqui temos.

E, acima de tudo, é minha fonte de inspiração.

Publicado em 7 de maio de 2020

Fiquemos no sofá

Por Suzi Aguiar

O Corona está espalhado pelo mundo afora. Esta é uma batalha tão letal quanto as outras. O inimigo invisível atacou bem longe de nós e por um bom tempo achávamos que, antes de chegar aqui, haveria contra-ataques poderosos e poderíamos estar livres. Mas não! As defesas existentes não são suficientes.

Nossos soldados vestem branco e arriscam suas vidas para cuidar das nossas. Por muitas horas seguidas ficam no front. E quando exaustos, depois de muitas horas de luta, nem sempre podem voltar para casa. Heróis anônimos.

Hospital quase sempre é lugar indesejável. Ninguém quer estar lá. Se pacientes, estamos num período ruim, pois a falta de saúde nos faz frágeis e o desânimo nos toma a maior parte do tempo. Se profissionais, como os anjos de nossa imaginação, passam os dias ou noites vivendo dramas que não são seus, mas que por empatia também ficam tomados de medo. Com diferentes procedimentos vão tentando encontrar a melhor maneira para a cura ou para minimizar os sintomas.

Emergências cheias, longos corredores, UTIs barulhentas pelos sinais constantes dos aparelhos que tentam manter os pacientes vivos. O vai e vem de pessoas compõe o cenário. A toda hora chegam doentes. Ali é palco onde vida e morte encenam o cotidiano. Nos rostos aflitos, nos passos apressados, nas lágrimas que caem é possível entender o dilema que cada um está vivendo. Diferentes histórias são protagonizadas no interior de cada porta fechada, de cada biombo que separa leitos. Com o agravante de que muitas vezes a família não consegue nem saber como seu familiar está.

Assim é o momento em que estamos vivendo. De repente, do nada, podemos estar de cara com a morte. Se ontem não, hoje ou amanhã talvez sim. Além dos Hospitais de Campanha sendo erguidos, é difícil nos manter tranquilos vendo caminhões frigoríficos estacionados em hospitais, sepulturas abertas, túmulos em alta escala sendo construídos.

A batalha continua. As perspectivas são ruins. Ainda não chegamos no pico da epidemia aqui. Mas se esta expectativa nos torna frágeis e o sentimento de impotência nos toma conta é hora de darmos a volta por cima e esperançar.

Além do pôr do sol, um novo dia sempre surge trazendo na bagagem muitas lições. Se nos desarmarmos dos embates políticos podemos ver que, apesar de todas as baixas, a bondade, fraternidade e solidariedade atingiram um número infinitamente maior de pessoas.

São tantas iniciativas, tantas pessoas engajadas em amenizar a fome e carências do outro, que o que fica como maior lição é o quanto somos amorosos e desprendidos especialmente em situações extremas.

“Aos nossos avós e bisavós pediram que fossem a guerra; a nós, que fiquemos no sofá”. Sejamos responsáveis. Esta é a parte que nos cabe nesta batalha.

Publicado em 27 de abril de 2020

 

“A gente não tem tempo para esperar…”

Por Suzi Aguiar

Fui convidada para o Café com Ideias, numa manhã carregada de boas surpresas no Colégio São José. Um evento cujo objetivo era mostrar aos empresários parceiros todas as aquisições realizadas pela administração atual e professores.

Na calçada em frente ao portão da escola já se percebe a diferença da maioria das instituições públicas. No amplo jardim, pátio interno, corredores e salas de aula, a limpeza e organização são impactantes.

Na entrada, um espaço cheinho de livros e volumes de enciclopédias completam o pensamento “As melhores viagens fazemos sem sair do lugar”. E ali qualquer pessoa pode folhear os livros e até levar para casa para ler. Não há cobranças ou preocupações. Todos sabem que devem devolver – a isso chamamos de educação adquirida.

O Colégio São José foi por décadas a melhor escola da cidade. Foi palco da aprendizagem da maioria das famílias joaquinenses, mas há alguns anos estava desacreditado. A gestão atual, que está no segundo mandato, assumiu, arregaçou as mangas e passou a realizar coisas inimagináveis para aqueles que pensam que o público não tem dono. Que tudo é obrigação do governo.

Muitos de seus alunos têm sido aprovados nos vestibulares das universidades mais concorridas. Além de um quadro de professores preparados, a escola oferece cursinho gratuito no período noturno. A partir deste ano é Projeto Piloto do novo ensino médio. Por isso, adquiriu várias salas ambiente.

Há diferentes empresas dando apoio financeiro. As realizações são tantas que fica difícil listar. A reurbanização do local tem sido constante. A escola já foi contemplada duas vezes em premiações estaduais. Também recebeu parceria da Polícia Ambiental, cujo projeto resultou na construção de estufa, horta, composteira e terrário.

A preocupação com o meio ambiente não está só no papel: numa ação social, a comunidade escolar fez a limpeza do riozinho que passa a sua frente. E a campanha para arrecadar lacres e tampinhas plásticas também é destaque. Além de coleta seletiva de óleo doméstico utilizado, cujo resultado tem sido a produção de sabão caseiro como atividade curricular de Química. E, claro, os valores arrecadados resultam em melhorias para maior conforto dos educandos, como aquisição de bancos para as áreas de convivência, material esportivo etc.

Mas o que me encanta é a maneira com a qual os professores inovam o fazer pedagógico, afinal, a aprendizagem é o objetivo principal. Os temas viram projetos e as atividades extra classe têm destaque importante para a aprendizagem. Enquanto tomávamos um saboroso café com iguarias joaquinenses, alunos apresentavam poesia, dança e música. Também a inclusão social é evidente, mostrando o quanto a escola está antenada com as demandas de uma sociedade democrática.

Na oportunidade, deputados, prefeito e empresários parceiros fizeram o uso da palavra. Mas o que realmente me emocionou foi a frase da diretora Singra: “A gente não tem tempo para esperar”. Com a energia desta maestrina, conduzindo e respeitando cada talento, o resultado

não poderia ser diferente: uma linda sinfonia. Parabéns a todos! Orgulho por ver uma geração de educadores da minha terra tão atuantes assim.

Publicado em 13 de março de 2020

 

Cuidar, um valor perdido

Por Suzi Aguiar

Nesta quaresma onde o lema é cuidar, fico um pouco preocupada com a maneira com a qual nós das gerações mais velhas estamos repassando valores para nossos descendentes.

Há um tempo atrás recebi um vídeo de meu neto de 3 anos, abaixadinho no gramado, bebendo água na torneira do jardim. A água escorria pelo queixo, pela camiseta. Tinha os pés descalços e uma carinha de feliz pela descoberta. Fiquei emocionada!

A maioria dos pais acha mais bonito mostrar que seu bebê sabe mexer no celular. Não, não sou contra, pelo contrário! Acho incrível a inteligência dos pequenos. Mas poucas crianças são incentivadas a experienciar coisas simples assim e nos vejo muito responsáveis por estas pequenas e prazerosas aventuras estarem se perdendo.

Também nos vejo negligentes no excesso de proteção com nossos filhos desde pequenos até a idade adulto. Nos sacrificamos demasiadamente querendo poupá-los. Lembro-me de que quando minha avó materna ficou viúva, os netos – crianças naquela época – entre 10, 15 anos se revezavam em dormir com ela todas as noites. Eu detestava, pois além de deitar muito cedo, não nos deixar ligar a TV e apagava todas as luzes da casa. Olhando por uma frestinha da janela, eu imaginava todas as coisas legais que poderia estar fazendo naquele momento. Mas ordem era ordem e quem ousava desobedecer?

Mais tarde em sua velhice, já adultos, a maioria dos netos se revezavam em passar as noites inteiras acordados, tentando amenizar o seu sofrimento numa doença terminal, enquanto nossas mães iam para as suas casas descansar, pois eram elas quem cuidava durante o dia. Sim, todos nós tínhamos nossas profissões e, por isso, o revezamento. Ninguém reclamava, pois crescemos vendo nossas mães cuidarem de seus tios e pais idosos. Era uma obrigação inata, natural para os mais jovens.

Nos últimos tempos as coisas mudaram muito. Cuidar dos nossos idosos continua sendo necessário, mas são raros os netos que se oferecem para dividir a tarefa. Estão sempre cansados, cheios de compromissos, não podem deixar os filhos pequenos em casa, não conseguem se manter acordados, ou ter uma noite mal dormida. Desculpas vãs! Ouvi certa vez de uma pessoa que, quem deve cuidar dos pais são os filhos e não os netos. Tristemente, conclui que ela não sabia nada a respeito do sentido verdadeiro da expressão amor familiar. Tive pena dela e de seus filhos.

Talvez, por isso, as clínicas de repouso para idosas se proliferem tanto! Não que as julgue ruins. São muito necessárias neste tempo em que as mulheres não são meras donas de casa. Para famílias tão pequenas realmente fica difícil estar direto ao lado dos pais envelhecendo.

As novas gerações estão a nossa frente em tantas coisas que é desnecessário listar. Mas perdem feio em compaixão, em empatia, sentimento de gratidão, dever e responsabilidade com os idosos. Não foram ensinados a devolver todo o cuidado e o carinho que tios e avós lhes dedicaram enquanto eram pequenos.

Publicado em 5 de março de 2020

 

“Viu, sentiu compaixão, cuidou dele”

Por Suzi Aguiar

Com a chegada da quaresma recomeça o tempo de penitência, de mais oração e caridade. Tempo de mudança interior, de nos aproximarmos de Deus.

Este ano o Tema da Campanha da Fraternidade – “Fraternidade e vida: Dom e Compromisso” – vem nos apontar caminhos para que exerçamos o cuidado entre as pessoas, as famílias, na comunidade e no planeta. Já o Lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” nos reporta para os exemplos de vida, amor e de entrega de Santa Dulce dos Pobres, cuja solidariedade junto às pessoas em situação de miséria e vulnerabilidade delinearam a existência. Poderia haver exemplo mais belo a ser seguido?

Para os cristãos é premissa ser solidário e atuante junto aos problemas ao seu redor. Assim foi Jesus, viveu a serviço dos pobres, doentes e necessitados.

Ainda é comum encontrarmos pessoas que se sentem superiores às outras. Mas cada vez mais a empatia com a dor e o sofrimento alheios é virtude admirada. Ter compaixão e ternura por aqueles que estão a margem da sociedade é se aproximar do verdadeiro “ser cristão”. Entretanto, um percentual muito pequeno da sociedade tem esta grandeza.

O que fazer então? Se eu não estiver engajado em ações solidárias estarei fora da proposta deste ano?

Não! Podemos fazer pequenas ações. Que tal começar este cuidado com aqueles a sua volta? Cuidar dos pais idosos, de tios solitários, de um vizinho que precisa só de atenção? Que tal oferecer um prato de comida, um remédio, um sorriso para o pedinte que passa a sua porta?

Façamos a nossa parte denunciando injustiças, maus tratos, indiferenças e todo tipo de violência. Cuidar da vida no sentido mais amplo da palavra, fortalecendo as relações humanas. Partilhando um pouco de nosso tempo, um pouco do pão nosso de cada dia com quem precisa nos faz verdadeiros filhos, a imagem e semelhança do Pai.

Vejo pessoas fazendo diferentes sacrifícios na quaresma. São comuns as que deixam de tomar bebidas alcoólicas, de comer chocolates ou tomar refrigerantes. Fazer jejum é oferecer sacrifício a Deus. Será que não faria diferença aos olhos d’Ele oferecer o cuidado com alguém necessitado?

Dá para começar cuidando de si mesmo. Não dar trabalho ou preocupação para os que nos rodeiam já é um bom começo

Publicado em 28 de fevereiro de 2020

Do borralho à avenida

Por Suzi Aguiar

As últimas semanas foram intensas. Passara os dias trabalhando numa grande loja de departamentos, na sessão de fantasias. Ajudara muitas pessoas na escolha da melhor opção para os dias de folia. Mais uma vez o desejo de se vestir de super-herói fora superado pela figura colorida e doce do unicórnio.

O dia chegara ao fim. Cansada do vai e vem, do desdobra e dobra, de dar elogios nem sempre verdadeiros, da forcinha para uma boa escolha, a loja fecha. Ela se dirige ao ponto de ônibus.

O corpo cansado agora repousa no pequeno sofá puído pelo sol. Os pés estendidos precisam de uma pausa. Fecha os olhos e dorme ali mesmo. A cortina entreaberta deixa passar a luz da rua. Os últimos raios de sol se despedem dando passagem para a lua. A quietude do lugar acalenta o sono até que o celular avisa que já é hora de acordar.

Um banho morno e demorado revigora. O corpo, agora relaxado, reclama de fome. Mas tudo já estava preparado. Depois de uma refeição completa sente que, agora sim, a festa pode começar.

Ainda de roupão abre a maletinha e com traços firmes a maquiagem vai transformando aquela figura meio sem graça. Corretivo, base, sombras coloridas e brilhantes, cílios postiços muito longos abrem o olhar. Por fim, um batom vermelho. Olha para o espelho e sorri para o reflexo que vê.

Abre a porta do pequeno armário e retira sua fantasia. Não, ela não fora comprada às pressas numa loja de departamento. Fora cuidadosamente escolhida no galpão de sua escola. Foi paga a longas e dolorosas prestações, mas que lhe presentearam com o gostinho bom do “eu posso”, “eu vou ficar linda”.

Veste-a. O corpo escultural fica a mostra. Sua profecia se concretizou.

A garota das semanas passadas ficara ali, trancada no pequeno quartinho, numa casa muito simples de comunidade. Enquanto aquela transformada pela beleza e exuberância das cores e brilhos desce a pé pelas ruelas com o coração acelerado. O Uber a espera. Entra. Enquanto percorre o caminho, a trajetória para a realização do sonho passa como filme por sua mente. Os sacrifícios, as opções, a difícil escolha e a certeza de que, sim, é verdade! É ela quem veste a fantasia.

O som da bateria já é ouvido de longe. O carro desliza devagar nas ruas que margeiam a grande avenida. Ele para, ela desce. Caminha devagar querendo saborear cada segundo, querendo viver por inteiro a realização daquele sonho. Com coração acelerado para diante do gigante. É ajudada a subir no lugar mais alto. Vê a multidão. Engole a seco. Apenas uma lágrima cai antes de ser tomada pela euforia. E canta! Canta o samba-enredo do começo ao fim da avenida. Saboreia os aplausos, agradece a chuva fina que refresca.

O sol brilha no céu quando a porta fecha, deixando do lado de fora aquela que o brilho transformou. Como a cinderela ela volta para borralho até o próximo carnaval.

Publicado em 13 de fevereiro de 2020

Ele é ela… Conto de Carnaval

Por Suzi Aguiar

A atmosfera já está diferente no país inteiro, das grandes às pequenas cidades. O sonho logo, logo vai sair do imaginário para se tornar real. Nos barracões o ritmo frenético dá o tom da folia. É fevereiro. O país já respira carnaval.

A espera fora longa, as prestações também. Mas o que importa agora é parar a rotina e embalar os dias ou as noites no toque da cuíca. Nos galpões, a adrenalina é o adereço mais utilizado e o brilho estampa cada pedacinho da história que a Escola vai contar.

As alas vão se formando uma a uma, os personagens ofuscam cada um dos foliões. Ali na avenida, nada do que foi importa, nada do que é faz diferença. Sorrir, dançar e cantar o samba-enredo é o que dá o tom, é a única regra.

Aos poucos, no compasso da euforia, chegam mais e mais foliãs e se agrupam felizes. Há uma ala só para elas. Seus corpos não são mais esculturais, mas ainda brilham como meninas no amor pelo carnaval. Agora o ritmo do quadril embala pesadas roupas. Todas, sem exceção, carregam nas veias a alegria e a paixão pela folia.

Mas basta prestar atenção: uma das baianas tem um brilho diferente no olhar. Veste muitas saias rendadas, grandes colares de bola e, no turbante tão alvo, frutas e flores se misturam. Antes de descer a ladeira guardou a sua história, varreu o pó de sua vida, espanou os afazeres, alvejou a alma, agora sem compromissos, e seguiu em frente.

Traz na alegoria da vida mais espinhos que purpurina. Nasceu menino, cresceu menino. Na labuta da vida diária veste a roupa que fantasia suas batalhas. Esconde-se durante o ano inteiro, do sonho ser ela.

Na sua imaginação já foi madrinha de bateria, porta bandeira, depois destaque. Agora abre alas para uma nova jornada. Nesta noite ninguém o reconhecerá. No pequeno espelho o brilho nos olhos e a boca vermelha, ofuscam a barba que teima em voltar todas as manhãs. Fecha a porta e com ela a vergonha e a insegurança ficam para trás. Junta-se as centenas de outras mulheres que mesmo tendo vivido muito, não viveram o suficiente para fazer a energia e o sonho acabar.

Ele é ela todos os dias, mas naquela noite, não enfrenta cara feia e nem julgamentos. Ele pode ser ela e ponto.

Publicado em 7 de fevereiro de 2020

 

“Não faz pobema”

Por Suzi Aguiar

Valentina já nasceu uma estrelinha. Todas as pessoas que tiveram oportunidade de conhecê-la ou de conviver com ela tem esta opinião. É doce, meiga e muito educada. Conversando um pouquinho com esta doçura já se tem a certeza de que sim, nasceu para as câmeras!

“Mãe, eu quero ser atriz, mas não quero esperar crescer para isso”. Esta frase mostra o quanto é madura e cheia de certezas, mesmo tão pequena.

Uma estrela precisa ter brilho. Algumas brilham muito, outras nem tanto. Valentina tem luz própria. Todas as entrevistas que assistimos e sua interpretação, que nos prende todas as noites em frente a TV, nos deixam extasiados.

A cidade toda se derrete cada vez que ela aparece. A gente sente um orgulho forte. É como se esta pequena fosse um pouquinho nossa filha. Seus encantos nos fazem acreditar num futuro melhor, num mundo melhor.

Valentina é uma criança muito especial. Como seu irmãozinho Ben, está sendo criada com princípios sólidos. Aprendeu a dar valor às pessoas e as pequenas coisas. Ver seus pais com um livro na mão é coisa corriqueira, sendo assim, ama livros. Todos sentam juntos à mesa para as refeições e nela, contam as coisas que aconteceram no dia. Tem os pais atentos às tarefas escolares e, pasmem, teve seu primeiro celular somente quando iniciou a carreira de atriz, porque “não deu mais para segurar, né?”, disse a mãe, certo dia.

Alguém desatento pode dizer que ela nasceu em berço de ouro. Eu diria, sim! Ter pais tão atentos como os de Valentina não é algo tão fácil de se achar por aí. Não é o dinheiro que importa, são os princípios.

Além de muito talento para as artes, esta menina tem algo especial, um tesouro que jamais lhe será tirado. Ela ama livros. Lê muito e por isso, é culta. Conversar com ela é uma delícia! Tem uma doce inocência e uma meiguice tão densa. A gente fica apaixonado sempre.

Que a bonequinha tem muito talento, não há a menor dúvida! Mas são a sua educação e essência que a fazem brilhar ainda mais.

Se ela ficou bobinha depois do sucesso? Claro que não! É tão doce quanto o algodão, tão leve quanto a brisa de verão, tão alegre quanto um dia no parque, tão linda e intensa quanto o pôr do sol nos finais de tarde joaquinense.

Guardem o que Fagundes disse no programa Encontro com Fatima: “Anotem este nome: Valentina Vieira”.

Não faz pobema**, Valentina! Mesmo longe da gente você está presente nos nossos melhores desejos

Avante! Você merece cada partícula desta conquista e de tudo mais que sabemos, viverá.

 

**”Não faz pobema”,  era uma frase da Valentina quando tinha 2 aninhos.

Publicado em 24 de janeiro de 2020

Surpresas no cemitério

Por Suzi Aguiar

Nos últimos dias que antecederam o natal tivemos duas surpresas ao visitar o cemitério. A primeira foi dar falta de uma das arvorezinhas que adornavam o pequeno memorial da praça. Uma delas havia sido roubada inteira e olha que já tinha quase um metro de altura.

Há aproximadamente um mês, já haviam tirado uma muda bem grande e estávamos na expectativa de que a planta não morresse. Agora acabou a ansiedade, a plantinha foi viver em outro jardim. Levaram-na de vez. Claro, trabalho premeditado, pois foi preciso usar ferramentas para tirá-la. Aí fico me perguntando: será que existe mesmo o mito de que planta roubada pega mais rápido e fica mais bonita? Acho que não! É apenas uma boa desculpa para os safados de olho grande no jardim alheio.

A praça do Cemitério, antes chamada de Praça Santa Catarina, passou a ter o nome de Talita Aguiar Almeida em 2008, depois de ter projeto aprovado por unanimidade pela Câmara de vereadores. Talita foi uma jovem de 17 anos, morta por atropelamento, na rua principal de São Joaquim por um jovem embriagado. A praça não é uma homenagem a ela, mas sim, uma alusão ao movimento nacional de direção sem álcool. Devido ao acidente a vida de dois jovens e de suas famílias foram modificadas para sempre.

Desde então, nós os pais de Talita, passamos a custear todos os cuidados do local. Mantemos a praça sempre limpa e florida, os muros e acessos pintados. As flores são substituídas na entrada do inverno e da primavera, sem contar nas dezenas de mudas que precisam ser repostas durante o ano todo porque foram roubadas. Outro problema latente tem sido mantê-la limpa. O descaso com o que é público ainda é muito comum. Há papeis, garrafas e tocos de cigarro por toda parte. Sem falar nos cães que dormem nos canteiros de flores, nos cavalos que são colocados ali para pastar. Não contamos nem com o serviço de limpeza pública para varrer e retirar os lixos jogados.

Nossa luta com o lixo na praça, com a sujeira e o mato no cemitério começou em 2004. Já tivemos diferentes gestores municipais, a situação melhorou um pouco. Atualmente continuamos esperando uma resposta do vice-prefeito sobre nossa solicitação de limpeza e coleta de lixo da praça, que afinal de contas é de responsabilidade do município. Também são frequentes as queixas sobre pessoas com atitudes suspeitas e ameaçadoras transitando pelo cemitério, afastando a possibilidade de que mulheres possam visitar entes queridos desacompanhadas. Nada é feito sobre isso também.

Mas eu falava no início da crônica, sobre duas surpresas. Pois é, recebemos uma mensagem avisando que o vidro da capelinha de nossa filha havia sido quebrado e a bonequinha roubada. Talita morreu muito jovem, de forma violenta, o que comoveu muita gente. Durante estes 15 anos passados do seu falecimento recebeu muitas plaquinhas de graças alcançadas. A maioria delas não sabemos quem as deixou. Mas bem recentemente recebemos uma plaquinha e uma bonequinha de pano, segunda a pessoa, por Talita tê-la ajudado a passar por momentos difíceis. Agora a bonequinha não está mais lá. Foi roubada. O que nos deixa menos tristes é que talvez tenha feito um natal mais feliz para uma criança. Mas nem este pensamento altruísta consegue apagar a verdade: o cemitério continua a sofrer depredações e descaso.

Publicado em 6 jan 2020

As faces do natal

Por Suzi Aguiar

Não gosto do final de ano. Não gosto das correrias de um lado para outro. Não gosto de comprar presentes e, menos ainda, de ganhá-los. Já virei minha vida do avesso me perguntando o porquê de tudo isso. Mas sei que nem sempre foi assim.

Lembro de ter querido dois brinquedos na vida. Não os tive. Lembro que durante os looooongos dias que antecediam o Natal, eu passava horas na vitrine da loja, com os olhos na boneca Susi, lançada nos anos 60. Em outra época, me apaixonei por uma bicicleta Caloi azul e amarela, exposta na calçada do Armazém Fontanella. Todo ano eu escolhia uma, mas ela logo aparecia com a plaquinha de “reservada”. E a minha linda inocência jurava que, naquele ano, Papai Noel tinha reservado para mim. Não, nunca ganhei os brinquedos que sonhara, mas também nunca pedi. Eu “sabia” que nossa mãe precisava dar o dinheiro para o Papai Noel comprar as peças para fabricar. E elas custavam caras.

E é com esta inocente sabedoria que penso nas milhões de crianças pelo mundo afora que sonham um sonho vazio. Milhões de pequenos que acordarão em mais uma manhã de Natal com a certeza de que o Papai Noel quer muito, mas não consegue atender ao pedido de todos.

Minha frustração infantil continua dentro do meu coração quase ancião, porque penso nas meninas que não afagarão as bonecas tão sonhadas, penso nos cabelinhos que não voarão ao vento porque as bicicletas ficaram apenas no desejo inócuo. Penso nos pés que não tocarão uma bola oficial e em tudo aquilo que nunca chegou: o uniforme do time, o patinete, o videogame, o celular… Minha frustração é saber que minha história de infância se repete a cada ano, em milhões de casas pelo mundo afora.

O Natal também é triste porque nele as ausências se tornam muito presentes: sejam daqueles de não puderam vir ou, especialmente, daqueles que já se foram. É melancólico porque do aniversariante poucos lembram. Ainda há muito a se pensar do pacote de mágoas, perdão e lágrimas.

Mas a noite fica divertida se esquecemos os problemas e rimos das figuras com as quais vamos compartilhar a noite mais bonita: a tia meio surdinha que não nos entende, o primo que se acha superior aos demais porque tem um ótimo emprego e um belo carro do ano, a nova namorada do tio recém separado que se acha linda – e não é que é mesmo? O cunhado que teima em falar do seu time de futebol a noite inteira, sem falar na criançada correndo ao redor da mesa.

Tem os amigos secretos onde sempre damos um bom presente e normalmente não gostamos dos que ganhamos, o amigo da onça, aquela brincadeira de roubar o presente do outro, que rende boas risadas. E, ainda, os abraços de Feliz Natal para quando a meia noite chegar.

Como última etapa do Natal, temos a manhã do dia 25. Quando os habitantes da geladeira, apertados, disputam um lugarzinho: sobras da ceia – por que sempre fazemos tanta comida? – sobremesas, o bolo do aniversariante que não pode faltar e outras muitas gostosuras que as mães fazem para agradar cada um dos filhotes que vem para almoçar.

Mas, de verdade, meu maior desejo é que a cada ano uma família acolha e realize o sonho de uma criança pobre de uma Instituição, ou não. Desta forma, haveria menos pessoas tristes porque o Natal está chegando…

Publicado em 23 dez 2019

É só uma lembrancinha…

Por Suzi Aguiar

Está aberta a caça as lembrancinhas! Sair às lojas, especialmente de shoppings, passa a ser uma aventura exaustiva! A cada dia que passa mais e mais pessoas se lançam nesta tarefa nada fácil! O que o presenteado vai gostar mais: do vermelho ou azul, de listras ou estampa? Tamanho G vai servir? Difícil ter certeza… mas levar o GG pode ofender, né? Brinquedo ou roupa? Bijuteria ou perfume? E se der só chocolates, fica chato?

Com uma listinha resumida ou não, cada vez fica mais difícil presentear aqueles que queremos bem. Agradar a família é sempre o maior objetivo: para o pai, para a mãe e filhos a gente capricha. Mas se são os netos o foco, então? Para eles o coração se derrete e o bolso esgaça. Para o marido? Jesus, a gente gasta tanto que não presenteá-lo passa a ser o melhor presente. Concorda?

Bom, alguns mais afortunados incluem na listinha os irmãos, os sobrinhos e os afilhados. Um brinquedinho para um, uma camiseta para o outro, uma meia, um batom, um perfume, um pijaminha, a réplica daquela carteira mais vendidas na Oxford Street de Londres, mas que a gente compra em qualquer lojinha com artigos do Paraguai.

Ih, não podemos esquecer de comprar um agradinho para a manicure, outra para a esteticista, para a professora do Pilates. Ah, para a professora do filho, afinal foi paciente com o pestinha o ano inteiro. Quem melhor que ela merece ser lembrada? Não podemos esquecer o porteiro, a moça da limpeza, do guarda de trânsito em frente à escola e da diarista que nos livra das piores tarefas de casa. Esta sim dá gosto presentear!

Dos muuuitos amigos secretos nem preciso falar, não é mesmo? Para que lembrar que escolhemos a melhor que podemos comprar e ganhamos sempre algo que não gostamos?

Na semana que antecede a noite feliz, a gente começa a entregar o que há muito custo compramos, apertando nosso já apertado salário, querendo demonstrar carinho e gratidão. Mas ao abraçarmos cada um dos nossos escolhidos, com um sorrisinho meio sem graça, vamos dizendo: É só uma lembrancinha, desculpe!

Nós precisamos ser desculpados, sim, mas por aqueles que realmente precisam de um olhar amoroso e são invisíveis aos nossos corações: as crianças de instituições, abrigos, bairros de periferia. Os idosos que vivem em asilos, em casa de apoio, ou lá no fundo de uma cama, sem que tenham o carinho daqueles para quem deram todo amor e dedicação a vida toda!

Que tal além das lembrancinhas para a família, optar por dar um bom presente para uma criança ou idoso cuja situação seja desfavorável?

Peça aos céus as melhores bençãos para todos aqueles que, de uma ou outra forma, fizeram no ano que finda teus dias mais fáceis, mais alegres, mais bonitos. Reze também por aqueles que te feriram com palavras duras pedindo perdão a Deus pelas mágoas que brotaram em teu coração. E aí as lembrancinhas podem virar um presentão!

Publicado em 9 dez 2019

Não está tudo bem, mas vai ficar

Por Suzi Aguiar

Esta é uma esperança que não quero perder, embora neste momento minha cabeça esteja presa em labaredas de angústia e de decepção. Na verdade, a gente já sabia que a possibilidade de voltarmos quase ao ponto de partida estava nos rondando, mas a constatação, ainda assim, foi dura.

Por um bom tempo vimos o sonho ir tomando forma e virando realidade. Assistimos a tubarões da corrupção presos na rede da justiça e a impunidade perdendo força. Cenas inimagináveis foram se desenhando em frente aos nossos olhos grudados na TV e, orgulhosos de sermos brasileiros, vimos mãos algemadas, passos incertos e cabeças não mais erguidas. Sim, os ladrões de colarinho branco estavam finalmente acuados.

Mas as tramas que envolvem justiça e poder são tantas! As armadilhas das leis, tão bem redigidas por aqueles que sabem como proteger a si próprios, nos deixam a mercê de suas falsas verdades.

Este é um momento muito difícil para os brasileiros. Todas as brigas e provocações que infernizaram nossa vida desde a prisão de Lula e antes das últimas eleições, mas que de certa maneira haviam diminuído, parece que pairam de novo as redes sociais.

Como em dia de céu cinzento, sou prisioneira da minha tristeza. Sinto um vazio no peito, um não querer falar nisso, uma sensação de impotência e aniquilamento. O povo vai às ruas para brigar entre si, defendendo políticos, mas fica sentado assistindo, inerte, aos desmandos dos ministros do STJ. Para alguns deles é normal mudar o voto dependendo das circunstâncias e do momento. Como acreditar na justiça? O que fazer quando aqueles “macacos velhos” fazem só o que lhes convém em detrimento dos anseios da nação?

Sinto saudades da coragem da juventude dos anos de 83 e 84, quando saíram as ruas lutando pelas “Diretas Já”. Mas nesta nova era, décadas depois, com a internet conectando o mundo de ponta a ponta, a rebeldia dos jovens parece que se resumiu a ponta dos dedos e não tivemos lideranças capazes de levar multidão para as ruas. Sem movimentos significantes deixamos os Ministros do Supremo Tribunal livres para dar o seu sim ou não, alheios à vontade da maioria do povo.

Aqui, quieta no meu canto, ouço o meu silêncio. Ele está cheio de gritos e súplicas por um Brasil mais justo.

Não está tudo bem, mas vai ficar. Gostaria de acreditar!

 

“Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”

Por Suzi Aguiar

Li esta frase na Capela dos Ossos da cidade de Évora, em Portugal. Nela todas as paredes são revestidas de ossos humanos. Mas, ao contrário do que se possa pensar, de assustador não tem nada. Foi construída no século XVII por três frades franciscanos, com o objetivo de transmitir a mensagem de transitoriedade e fragilidade da vida humana. Diante dos ossos não distinguimos os ricos ou pobres, pretos ou brancos, gordos ou magros. Sem nenhuma exceção, todos têm o mesmo fim e se igualam completamente.

Refletir sobre estes aspectos que permeiam os ciclos de vida e morte é sempre bem-vindo. Mais uma vez Finados está aí e os cemitérios recebem todos os cuidados. Os túmulos são lavados, pintados, as flores são substituídas. Em cada uma delas estarão os sentimentos de amor eterno, de saudade infinita, mas podem também falar de mágoas, tristezas pelo que se deixou de fazer ou de viver com aqueles que se foram.

Todos nós temos uma história de vida e são os traços do que somos e vivemos aqui que vão definir o quanto a falta será sentida. Ninguém é bom ou mau por inteiro, entretanto, as características mais intensas serão as mais lembradas. A nós que aqui estamos, nesta época especialmente, é comum refletir sobre os laços que nos ligavam aos que se foram. Tentar não repetir erros ajuda na busca da paz interior.

Muitas vezes passamos a vida inteira remoendo mágoas. Às vezes guardamos palavras que podiam esclarecer mal-entendidos, deixamos de pedir ou dar perdão. Histórias assim deixam uma fresta entreaberta e o ciclo não se fecha. Outras vezes a dor é tão forte e o inconformismo tão latente, que não deixamos o outro ir-se definitivamente. O luto prolongado adoece a todos, não apenas aos que saudade não se apieda. Os que estão a volta também se enternecem pelo sofrimento exacerbado.

Deixamos o outro ir quando falamos do seu nome sem nó na garganta, quando as lágrimas de saudade vêm acompanhadas do riso, fruto das boas lembranças. Deixá-lo ir não é esquecer, bem ao contrário, é internalizá-lo definitivamente no coração e, assim, tê-lo por perto para sempre.

Já tenho um bom número de pessoas queridas do outro lado. Procuro pensar que a vida aqui não é a única, nem a mais importante e que haverá, sim, o reencontro. Aceitar que somos finitos ajuda a superar a tristeza e a saudade.

Meu desejo é que todos os que precisaram devolver a Deus pessoas amadas, especialmente neste último ano, tenham a sensação de dever cumprido e paz no coração.

Nós outros que aqui estamos, um dia em ossos nos transformamos. Isto é certo! Vale refletir!

 

Eu Seria Professora De Novo, Se A Vida Recomeçasse

Por Suzi Aguiar
Não há como não lembrar. Nem há como esquecer as centenas de histórias vividas na pele da professora que fui. Foram 32 anos. Já faz quase uma década que fechei o ciclo e me aposentei e eu ainda gosto de dizer que sou professora. Isto me dá orgulho, uma espécie de poder, de saber-se capaz de transformar vidas e isto não há salário que pague.

Me vejo professora quando invento para sobrinhos e neto brincadeiras envolvendo letras e números. Quando, empolgada, modifico a entonação de voz para deixar claro que o personagem da história mudou. Me vejo professora sentada no chão ou inventando mil peripécias para que qualquer brincadeira vire uma divertida aprendizagem.

Não! Não sou só uma avó apaixonada por letras e livros! Minha alma é professora! Ela precisa ver-se ensinando.

Quando estou com crianças me transformo. As brincadeiras que favorecem o ler e o escrever brotam do nada, sem planos, sem intenção. Elas apenas vêm! E fico feliz com a sintonia que surge entre mestre e aprendiz. O sorriso da descoberta e o olhar de quem aprendeu são impagáveis, tal qual a sensação de que, sim, eu ainda sei ensinar.

A paixão pela docência nasceu comigo. Sem nenhum tabu digo que fui uma professora apaixonante e apaixonada por ensinar e aprender. Inventava mil brincadeiras e atividades divertidas. Era incansável especialmente com aqueles que tinham dificuldades. Jamais desisti de um aluno. Amava o trabalho de conquistar a confiança.

Nos últimos anos me via cansada de dar aulas. Cansada do dia a dia maçante. Cansada de pais irresponsáveis. Estava exausta de mergulhar de cabeça nos problemas que não eram meus, exausta das promessas dos governantes que nunca se cumpriam. Alguns vezes me deixava abater por esta nuvem cinzenta que cobria a beleza do ensinar e aprender.

Eu me aposentei. Fiquei distante das escolas para varrer do coração todos os cansaços que me afligiam.

Tanto tempo longe deste cotidiano e me vejo com saudade dos meus pequenos. Das dezenas de beijinhos melados na chegada. Dos abraços apertados da saída. Saudade da mesa repleta de presentes dados com o mais inocente e profundo amor: uma tampinha de garrafa, uma flor, muitos desenhos que diziam mais que uma folha inteira de palavras, uma bala – isso, aquela que alguém achara necessária para retribuir o sorriso todas as manhãs. Saudade de tantas outras coisas que podiam parecer insignificantes, mas que tinham todo o sentido para dizer implicitamente “eu te amo”.

O mundo mudou. A vibe é outra: livros interativos, diferentes idiomas, e todos os desenhos vistos na palma da mão dos pequenos, novos jeitos de ensinar. Mas a figura do professor e do aluno continuam se conectando apenas com o coração e, quando isso acontece, o amor é a soma total.

É desta paixão que tenho saudade. É este querer bem que me faz falta. Que bom que eu vivi tantas histórias bonitas, tanta entrega recíproca capaz de fazer irrelevantes o cansaço e as decepções.

Que bom que eu posso dizer: Eu seria professora de novo se a vida recomeçasse…

 

Acerta desta vez, São Pedro

Por Suzi Aguiar

Ui!

Ele voltou! A gente nem teve tempo de sentir saudades.

Depois de um período onde o frio praticamente nem tinha dado as caras a ponto de nos deixar assustados com as temperaturas altas, agora há o alívio geral.

Sabemos que os culpados deste desajuste somos nós mesmos. Mas vai perguntar o que cada um realmente anda fazendo para que o caos não se instale de vez, que resposta concreta ninguém dá. O planeta está mudando, o tempo está mudando. Só a gente não toma vergonha de verdade.

Alguns culpam São Pedro. Acham que está meio confuso e já não consegue se lembrar das características de cada estação. Outros, que o bom velhinho está demente ou com Alzheimer. Há os que dizem que o coitado, trêmulo, aperta errado as teclas do seu iMac confundindo inverno com primavera ou outono com verão e, como resultado, as temperaturas ficam desajustadas. Será?

Neste último mês ele acertou. O friozão de verdade já andou batendo à nossa porta. Há quem diga que as temperaturas registradas não eram vistas fazia quase uma década. Agora as toucas, casacos e cachecóis são peças imprescindíveis. Lavados ou arejados nos sorriem no armário cada vez que o abrimos, prontos para desfilar por aí. Ao levantar, o ritual é sempre o mesmo. Vestimos camadas e mais camadas de agasalhos. Durante o dia, tal qual cebola, vamos descascando estas camadas e tornamos a vesti-las antes mesmo do final da tarde chegar.

A preocupação com o comércio que estava as moscas, agora dá lugar ao alívio de ver as belas vitrines conquistarem nossa vontade de comprar. E assim, ao final do dia, os funcionários precisam organizar as mercadorias que foram sendo largadas ao longo dos balcões e prateleiras. Cadê o tempinho para o ócio? Para dar uma fugidinha no sol?

Com o frio morando por aqui a gripe nesta temporada veio bem mais forte assustando os desatentos. E as farmácias, estas sim, continuam faturando.

No litoral o frio também chegou. O vento sul tem passado por aqui com mais frequência. E, com o frio e o vento, chegaram as tainhas. Os freezers nas casas dos pescadores estão cheinhos. Fala sério! Quem não gosta de saborear uma bela tainha assada? E se for recheada com paçoca de pinhão, então? É de trancar a casa e fechar as cortinas.

Com a vinda do frio intenso, as cidades que vivem do turismo de inverno estão recuperando as finanças. É bom ver que todos se prepararam para receber os visitantes.

Agora é esperar que as previsões de neve se confirmem desta vez e, assistir de camarote nossa vedete vestir de branco os campos, vegetação, telhados. Amo ver as cercas e fios de arame, quando o dia amanhece, pintados pelo maior artista do universo. Amo quando o sol nasce e seus raios refletem no branco, como se fosse uma benção dos céus.

Vai lá São Pedro, dá uma forcinha aí. Olha bem o teclado. Desta vez aperta a tecla NEVE, depois CONFIRMA.

Nasce um pai e uma mãe

Por Suzi Aguiar

Um acontecimento tão importante quanto a geração de uma vida, quando um óvulo e um espermatozoide se unem, é o nascimento de um pai e uma mãe. A confirmação da gravidez é um momento mágico na vida de um casal que se ama e que deseja construir e perpetuar juntos uma história de vida.

A princípio tudo é emoção. Um sorriso bobo congela a boca de orelha a orelha e a verdadeira felicidade se materializa.Mas junto com tudo isso, antes mesmo do corpo da mãe externalizar a gravidez, todo seu organismo passa por transformação, tanto no campo físico, quanto no emocional. São os seus hormônios se alinhando para o momento mais especial e uma mistura de sentimentos torna a mãe mais frágil e emotiva.

Não diferente da mãe, para o papai também surgem os medos: Nosso bebê virá perfeitinho? Terá saúde? Vamos dar conta de cuidar? Vamos saber educar? Vamos ser capazes de prover suas necessidades?A perfeição de Deus nos diz que sim, porque o amor de pais para com filhos é algo divino que conhecemos já na confirmação da gravidez. A essência das palavras maternidade e paternidade, como mágica, nos transforma em seres humanos muito fortes. É difícil descrever todo o empoderamento que nos acomete e nos torna tão especiais.

É uma condição que nos faz determinados, capazes de proteger o filho e superar todas as dificuldades que porventura surgirem.O período de gravidez serve para dar um tempo. Sim, um tempo para o bebê crescer, mas também para que os pais aprendam as nuances de sua nova história. Serve para que os futuros papais se informem sobre cuidados, para que pensem nos valores com os quais querem conduzir a educação dos seus tesouros.A doçura os inundará por inteiro no instante em que aconchegarem o recém-nascido nos braços e, só então, saberão o que é, verdadeiramente, o amor idealizado por Deus aos seus filhos. Será um marco em suas vidas, pois a partir daí, o papel mais importante que desempenharão será o de mãe e pai. Todos os outros serão coadjuvantes em suas trajetórias.

Como educadora, meu desejo é para que todos os pais sejam sábios em conduzir seus filhos pelos caminhos da vida. Que se empenhem em exemplos para fazê-los sentir que ?ser? é infinitamente mais importante que ?ter?. Que os ensinem a amar a natureza e as criaturas de Deus, a valorizar a família independente dos laços e das diferenças, pois será sempre ela a estender a mão e oferecer o ombro nas dificuldades. Que os deixem perceber que o sucesso é importante, desde que não o alcancemos em detrimento dos outros e que não seja usado para, de alguma forma, humilhar alguém.

Que os ajudem a florescer como criaturas espirituais livres de todo tipo de medo e inundados pelo sentimento do amor que cada um dos pequenos que chegar neste mundo traga uma luz cristalina, bela e cheinha de bençãos dos céus.