Gosto mais de imaginar do que de lembrar

por Suzi Aguiar

Verdade! Ouvi está frase num dos episódios de “Anne com e”, uma série do Netflix. A citação mexeu comigo e com minha vontade de escrever.

Lembrar pode trazer dor. Revira gavetas. Abre caixinhas. Espana a poeira e expõe sentimentos guardados muitas vezes a sete chaves.

Em outras vezes lembrar faz bem, de todo, sem ressalvas. Mas a vida é assim mesmo. Para um momento de felicidade temos, em contrapartida, muitos momentos opacos. Isso mesmo, sem brilho algum. Outros tantos nos tons mais sem graça da paleta de sentimentos.

Anne é uma menina órfã que acidentalmente é adotada por um casal de irmãos idosos e solitários. Sua alegria de viver e imaginar a colocam em muitas trapalhadas. Mas seu humor e paixão pela natureza e pelas pessoas são ótimos motivos para se encantar por ela.

O dia a dia escolar desta menina que se acha feia e sem graça, é delineado pelos mais variados tipos de preconceito. Embora a curiosidade e o amor pela leitura façam dela alguém muito especial, vive momentos muito mais feios e sem graça do que aqueles que ela imagina.

A maioria das adolescentes passa horas da noite sonhando que o garoto mais bonito da escola, ao passar, vai lhe dar um “oi”. Mas a maioria das vezes aos olhos dele, a jovenzinha é tão atraente quanto um nabo ao lado de moranguinhos na barraca de feira.

Imaginar esta mesma cena aos olhos de Anne é muito mais interessante! Ela, de cabelos dourados feitos o sol, esvoaçantes pela brisa da manhã, cheirosos com os lírios do campo, está sentada no pátio da escola. Ele entra pelo portão. A vê ali. Poe nos lábios o maior sorriso e lhe diz: “Oi! Hoje você está ainda mais linda! Pega na sua mão e ambos caminham felizes em direção a sala de aula.

E assim é, pela vida afora. Sem as doçuras da adolescência a vida segue muito mais bonita quando a imagino.

O céu muito azul está ali, mas abaixo dele mil afazeres domésticos. Aí penso na beleza de me sentar na rede da varanda, com um bom livro para ler, sorvendo cada palavra desenhada página por página. Bem isto! Para mim um bom livro tem palavras desenhadas de tal forma que me envolve por inteiro, fazendo com que eu esqueça a realidade por um longo tempo.

A gente passa a vida toda construindo o futuro. E nesta obra sofre, cansa, chora, ri, cansa de novo, sorri, adoece, sofre de novo, da gargalhada, trabalha, cumpre mais tarefas, aconselha, briga, sofre, se compadece, sorri, sente empatia, caminha, estuda, corre, e corre sempre sem parar. Também abraça, beija e aproveita este pequeno momento de felicidade.

Nesta caminhada colocando cada tijolo para o futuro, passei por momentos muito bons e por outros tão tristes. Mas errei quando deixei que por muito tempo as tristezas fossem as lembranças mais vividas. A jornada é impiedosa. A vida cobra da gente de várias maneiras, em vários aspectos. Você sabe bem como é isso, não é mesmo?

Então, faça como eu. Lembre menos das coisas que te fizeram triste e imagine mais como gostaria que as coisas acontecessem. Mas aqui entre nós, vale tentar fazer a imaginação virar realidade. Ou ser feliz mesmo que os momentos não sejam épicos!

Publicado em 11 de agosto de 2020.

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