O filho mais ilustre deixa sua terra

Por Suzi Aguiar

São Joaquim está de luto, morre a figura mais importante de todos os tempos. Nenhum outro filho desta terra chegou tão longe politicamente, da mesma forma nenhum outro levou o nome de São Joaquim tão distante.

Era imensuravelmente inteligente e culto, e ao mesmo tempo, gentil e humilde. Aos seus ouvintes, como advogado, dava aulas de conhecimento, mas sempre deixava seus interlocutores à vontade para expor ideias. Seja no Jornal Travessia, ou em suas redes sociais, tivemos a possibilidade de ler suas poesias e crônicas sempre cheias de profundidade e lirismo, dando vazão ao seu eu mais íntimo.

Desde pequeno, no primeiro ano escolar, Henrique já era um menino diferente, se orgulhava de contar, dona Mafalda, sua primeira professora. Fora um jovem atento aos movimentos políticos. E na universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formara em 1963, fora um líder estudantil. Fato justificável pela sua oratória invejável, fruto de leituras infindáveis. Com a revolução de 1964, por ter participado de movimentos estudantis e por seu pai ter em sua biblioteca livros considerados subversivos, o jovem advogado fora preso.

Mesmo depois de ser solto e estar com seu Escritório Advocatício aberto e a placa de Doutor pregada na porta, os clientes não apareciam. Na pequena São Joaquim ninguém queria se aproximar de um ex-preso político com medo de retalhações. A revolução deixara marcas.

“Estava abatido. Era um pai de família e precisava provê-la de suas necessidades. Em uma visita do padre Blevio o advogado contou-lhe sobre a situação e da necessidade de mudar de profissão ou da vontade de entrar para a política e candidatar-se a vereador de São Joaquim.

O pároco, então, como disse o próprio advogado, “tinha um sentido prático extraordinário” aconselhou-o a candidatar-se a deputado estadual, argumentando que a região serrana precisava de um representante. Assim, convenceu-o a filiar-se a Arena, que fomentou o golpe militar de 64. Uma situação inusitada, mas comum no mundo da política: o partido que o encarcerou por defender ideias socialistas, o apoiara.

Padre Blevio prometeu ajudá-lo na campanha, certo que Dr Henrique seria eleito. Não havia o dinheiro necessário para a campanha. A estratégia fora muito simples. O então candidato já era um assíduo colaborador da igreja. Participava ativamente fazendo palestras ou discursos receptivos a autoridades eclesiásticas quando em visitas a cidade. Dessa forma, nas inúmeras visitas do padre Blevio as capelas do município, Dr Henrique o acompanhava. Depois de fazer a leitura do evangelho, o padre passava a palavra para o candidato para que ele fizesse o sermão. Para o povo simples, ouvir aquele insigne orador nas manhãs de domingo certamente era um presente.

– Vocês gostaram do sermão do Dr Henrique? Quem gostou levante a mão.

As mãos para o alto eram a garantia de que sim, gostaram.

– Então no dia da eleição pensem em mim e votem nele! Dizia apontando para o candidato em pé, ali ao lado do altar.

Como resultado incríveis 95% dos votos de toda a região. Aquelas pessoas simples, que o ouviram nas capelas, mesmo sem saber, se tornaram cabos eleitorais, quando contavam aos vizinhos, compadres e familiares sobre o que ouviam nas missas dominicais.

Mas infelizmente ele não conseguiu se eleger. Ficou na quinta suplência, com 6.337 votos, faltando apenas 163 para ter direito a uma cadeira na Assembleia Legislativa. Com o afastamento de alguns deputados, por motivos diversos, dois anos depois assumira pela primeira vez como legislador estadual.

No pleito seguinte, em 1970 fora eleito, desta vez com o dobro de votos. Em 1974, alçou voo para a Câmara Federal, onde foi deputado constituinte. Deixou o cargo para se tornar vice-governador do estado de Santa Catarina ao lado de Jorge Konder Bornhausen, em 1979. Três anos depois, assumiu o Estado, em substituição ao governador que renunciou para se candidatar ao Senado. Como governador assinou uma lei, ainda em vigor, que da direito a todo portador de necessidades especiais a um salário mínimo por mês. Na época eu dava aulas para classes especiais e vi a diferença desta lei para as famílias de meus alunos. Foi uma conquista muito importante.

Ao padre Blevio Ozelame a amizade eterna e o reconhecimento do político que lhe ofereceu em 2014, como homenagem de gratidão, o concurso literário, do Jornal Travessia, de sua propriedade, para eternizar numa biografia sua trajetória de sucesso”.

Nesta época várias pessoas me ligaram avisando do concurso, mas eu não me julgava capaz de escrever um livro, embora já tivesse sido classificada no concurso para escrever uma carta para o Dr Olavo. Na última semana das inscrições estive no escritório do Rodrigo Nunes, que coordenava o Travessia, conversar sobre algumas fotos, um trabalho voluntário que eu precisava que ele fizesse. Foi quando ele me disse que o Dr Henrique havia pedido que ele me avisasse do concurso.

Imaginem! O homem mais culto que conheci me julgava competente para escrever um livro. Como eu poderia não acreditar em mim? Escrevi a biografia. Ganhei o concurso!

Hoje Dr Henrique morreu sem nunca ter sabido que um simples gesto me fez entender que sim, se a gente acreditar, a gente consegue.

Agora ele partiu. É ainda mais triste saber que não vamos poder dar nosso adeus em sinal de agradecimento, nem nosso abraço à família em sinal de respeito e amizade. Tudo porque um vírus mortal entrou em nossas vidas sem ser convidado e está tirando muito mais do que nosso sossego. Está tirando nossos prazeres, nossos desejos e muitos amores e entes queridos. Tudo isso sem pedir licença e sem aviso prévio.

Nunca vou esquecer o homem mais inteligente, mais culto, ao mesmo tempo, muito simples que tive o prazer de conversar poucas vezes, mas que vou admirar para sempre.

São Joaquim está de luto. Perdemos um grande homem! Perdemos nosso filho mais ilustre!

***[Ozelame Blevio. 2015. Pág 173 – 177]

Publicado em 16 de novembro de 2020.