Plante uma árvore

Por Suzi Aguiar

Este finados vai ser diferente de todos os vividos por séculos. Desta vez, o momento de rezarmos unidos por nossos entes queridos não será celebrado por padres em missas nos cemitérios espalhados pelo Brasil. O COVID nos trouxe um mundo estranho, nos impôs situações difíceis de enfrentar. Este será talvez o mais triste, pois milhões de famílias que não puderam se despedir com dignidade de seus amados, viverão este dia pela primeira vez.

Sempre que perdemos alguém, a passagem desta primeira data é pesada demais. A gente não acredita que está vivendo tudo aquilo. Os muitos abraços que recebemos e os olhares de piedade nos passam despercebidos pelo torpor que nos acomete. É duro demais.

Mas os anos passam um a um e a gente vai internalizando a nova situação. Mas sei que, nem neste momento, nada me fará deixar de levantar cedinho e, tomando todos os cuidados, sentar em frente ao canteiro florido e falar, silenciosamente, de todo o meu amor de filha e de todo o meu amor de mãe. Sim, vivemos muitos papéis pela vida afora, estabelecemos diferentes tipos de relações e, neste dia, os corações precisam falar ao pé do ouvido.

Que neste ano, você possa, como eu, passar um dia de boas recordações. Que as flores levadas sejam como mil abraços bem apertados, daqueles que todos sonhamos há muito repetir. Que o perfume que delas exalem façam com que só lembranças boas possam vir à tona. Que você possa fechar os olhos e sentir todo amor transbordar, pois ele atravessa mundos, planos de vida e morte. Amores perdidos provocam lágrimas, mas também muitos risos.

Mas com tantas restrições, ficar em casa pode ser uma boa escolha. E a ideia da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de sugerir que plantemos uma árvore em homenagem aos que se foram é surpreendente, especialmente porque a devastação pelo fogo em tantos lugares tem trazido desesperança. Plantar, cuidar, acompanhar o crescimento é tão bom, o que dizer, então, se junto de nós pessoas amadas estiverem em nosso pensamento.

O plantio de uma árvore pode ser comparado aos nossos amores que se foram; quando pequena e frágil, lembra os primeiros tempos da partida. E passando as estações uma a uma a planta vai mudando suas nuances, como nós que dias estamos bem, em outros tão tristes. Quando adulta e vigorosa, lembra nosso amadurecimento para deixar o luto para trás e ir em frente, porque a vida é cíclica e precisamos seguir.

Então, especialmente aos que perderam vidas para o COVID, aceitem o chamado, plantem uma árvore no quintal, em uma praça, na beira de uma estrada por onde costumam passar. Assim, o mundo ficará mais bonito e, sem você perceber, o tempo vai seguir e a cura chegar. E, as cicatrizes que ficarem, tenha certeza, serão como tatuagens de amor eterno.

Publicado em 29 de outubro de 2020.